Espertos

terça-feira, 15 de junho de 2010

Barulhos de Fabrício Carpinejar

O músico e compositor, Reynaldo Bessa guardou a infância no quarto até onde deu. Agora explodiu pelas janelas e portas. "Outros barulhos" é um baú que transbordou: quando os mortos e vivos se embaralham na linguagem, lembranças são confundidas com premonições; vozes, com cheiros. Ou ele publicava esse livro ou ficava louco, não tinha escolha.

É uma fartura de vida, um armazém de fiados, armário de brinquedos extintos, que todo leitor vai se exuberar. É uma obra da saudade. A saudade alegra, inclusive, os dias em que cortamos os dedos.
O livro quer a poesia como iluminação da corda. Faísca da corda de violão. Eu pergunto: quantas forcas há no violão? Quantos homens são desenforcados pela música?
É uma música muda. Uma música que estica a vida que não houve.
Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. Como um menino ingênuo, ele questiona: "como pode alguém com fome/ ter medo de relâmpagos?" Alguém já pensou nisso antes?
Pela verdade apurada, de antever contradições e desarmar ciladas da auto-ajuda.

"Há algo de liso, de falso, de suspeito,
na total aceitação.
uma leve, porém inquietante tensão,
feito a frágil sacola do supermercado que a gente nunca
sabe se vai romper ou se vai agüentar
as compras até chegar em casa."

Sua sensibilidade é espiã. Não suportaria suas dores se não carregasse também a dos outros. Por isso, sofre com o bêbado voltando para casa, como se houvesse um trapézio transparente na rua; os vizinhos rindo e os familiares o segurando com os olhos. A poesia quando narração é imbatível. A poesia como contadora de histórias é imbatível.
Sabemos muito mais da memória de Bessa.

"o silêncio
do meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai."

Porque ele nos confidencia sua imaginação.


Fabrício Carpinejar
poeta e jornalista, mestre em
Literatura Brasileira pela UFRGS.

Um comentário:

  1. Amigo, estava lendo a coluna Nossa Aposta, da Revista Bravo, sobre a poeta mineira Ana Martins Marques. O texto é do Carpinejar. Fazia isto a menos de meia hora e me perguntava se ele já havia escrito sobre os seus "Outros Barulhos". O mundo é enormemente pequeno mesmo. Estou emocionado. Sentimento que, aliás, você vive a me provocar. Parabéns e continue a fazer outros, mais e melhores barulhos sempre.
    Do seu amigo e irmão,
    Abud

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