Ela apareceu de repente. Foi como se tivesse esgueirado-se pelas fendas do irreal e se postado bem ali na minha frente, dentro do real, onde tudo ainda doía: as paredes, os quadros, as ruas, as árvores, as folhas, os semáforos, o chão, os carros, as pessoas, as luzes, a tarde, tudo. Tudo isso ainda doendo sob as pálpebras do tempo. Quando ela me olhou de frente, mais ou menos como uma execução sumária, perdi completamente a noção do que acontecia à minha volta. Ela já tinha o controle de tudo, não sabia, mas tinha. A primeira coisa que me tirou o fôlego e a capacidade de tentar escapar dessa armadilha foi a sagacidade verde que emanava do seu olhar. Ah! Os seus olhos: duas lâminas verdes e afiadas. Eu os olhava e me dava uma tremenda vontade de mergulhar fundo. E eu mergulhei. Não devia, mas mergulhei. O que eu poderia ter feito? Digam-me. Até porque também havia sua boca cheia de beijos arquivados e histórias sob a língua. Histórias, que no breve curso dessa explosão, eu as ouviria com olhos famintos e coração trepidando.
Convidei-a para um café com receio que ela fizesse como a menina, que vez ou outra invadia meus sonhos: toda vez que eu tentava tocá-la ou mesmo me aproximar, escapava e a única coisa que me deixava era a incerteza de voltar um dia. Para meu espanto, ela aceitou, e exultante, esqueci, por um momento, a menina dos meus sonhos e as coisas doendo lá dentro.
Entre um gole e outro de café, enquanto a xícara tocava seus lábios imponentes como uma catedral, eu me perguntava se deveria ficar ali ou sair o quanto antes, pois o medo; esse bebê chorão bem no meio do meu peito não me deixava em paz. Ele e sempre ele.
Começou a chover. Saímos sob um guarda-chuva estropiado pelos ventos alucinados de um Fevereiro úmido. O que aconteceu depois? Ora, o que um homem e uma mulher podem fazer quando acham que não existe nada, nada mais além dos dois?
Um dia saí de sua casa e caminhei quilômetros a fio. Não conseguia parar. Não tinha medo de nada. Sentia-me como que caminhando numa outra camada da noite. Como se as pessoas pudessem me ver, mas não me tocar, entendem? Então eu caminhava, caminhava e nada teria me parado. Depois de muitas horas, cheguei em casa e continuei caminhando por ela e continuaria assim, se por um átimo, não tivesse pensado que o êxtase também pode carregar o poder de aniquilar.
Lembro-me de nossas voltas melancólicas, quando ela, cheia de energia, resolvia me acompanhar até minha casa. Deslizávamos pela madrugada tão silenciosa que até podíamos ouvir o estalar dos semáforos como ossos se partindo. Nos postes, sob os bocais, escorriam lágrimas douradas. Eu olhava as ruas. O que elas tinham que mexiam tanto comigo? Porque toda essa nostalgia quando eu estava diante delas? Os néons continuavam tentando me dizer alguma coisa. O Elvis vibrava no discplayer, mas era como se estivesse ali, entre nós, no banco de trás e eu pudesse, a qualquer momento lhe perguntar alguma coisa. Eram canções que eu tinha ouvido muito na adolescência, mas que só agora entendia perfeitamente o que realmente diziam:...Você olha para a porta e me imagina ali? Seu coração está cheio de dor? será que eu voltarei? Diga-me querida, você está solitária hoje? Ou:...querida você mentiu quando disse que me amava... mas eu prefiro continuar ouvindo suas mentiras a viver sem você...Ou: ...agora o palco está inutilizado e eu estou aqui parado com o vazio à minha volta e se você não irá voltar pra mim, então faça com que baixem as cortinas...
Nos olhávamos e ponto: tudo estava dito. Tudo já havia sido feito. Vez ou outra ela assumia um jeito muito peculiar de dirigir o carro: apenas um dedo de cada mão, agora não lembro se era o indicador ou o médio, tocava a direção. Era como se ela quisesse, por algum tempo, colocar todo o restante pra descansar, mas sei muito bem que não era isso. De esguelha eu olhava seus lindos dedos sobre o volante e pensava “Esse é um daqueles detalhes que não vou esquecer muito facilmente” O Elvis continuava destilando todas as suas dores e as ruas pareciam entender muito bem disso. Eu podia ouvir seus lamentos sob os pneus.
Não é só a infelicidade que nos impede muitas vezes de seguir em frente, a felicidade, por incrível que pareça, pode também conseguir isso. Sem falar nos conflitos entre você e o outro dentro de voce mesmo, entende? Eu sei, nem eu, mas a coisa é assim e lembram-se do bebê chorão que falei no começo? É, aquele que não me deixa em paz? Pois é, quando eu tentava, enfim! Esquecer-me em seus braços macios e sob seus cabelos cheirosos - isso sempre me fazia lembrar de um lugar onde um dia realmente me senti seguro e que sei muito bem, saí contra a minha vontade - esse bebê barulhento sempre dava umas de me despertar. Trazia notícias de longe e me fazia perguntas que até hoje não sei se existem respostas.
Alguém disse um dia que o mundo todo foi dividido pelo medo. Sim, o medo dividiu nosso planeta em hemisférios, continentes, países, cidades, bairros, ruas e sei lá mais o que. Temos medos. Eu com os meus e os outros com os deles e pra que isso dispare num precisa de muita coisa não, quero dizer, num precisa de nada, pois de qualquer jeito ele virá à tona, mesmo que não queiramos. Afinal a confusão precisa continuar. Então, numa bela madrugada – chamo-a de “bela” para tentar atenuar o quão trágica foi - em que todos os meus demônios resolveram correr para o playground, parti com meus pés explodindo tudo. Parti com tanta força que meus passos de ferro derrubaram todas as pontes e caminhos que havíamos construído. Até a convicção pode ser uma charlatona. Em que mais podemos acreditar? Quando alguém me enche o saco sobre a provável existência de Deus, costumo argumentar que até acredito, mas não confio nada Nele. Mas voltemos a convicção, pois é. Saí puxado pelas mãos dessa senhora como os ratos ludibriados pelo som do flautista. E até onde eu poderia chegar?
Numa dessas madrugadas frias e sem rosto em que a lua é extraviada e todos os cães são silenciados. Quando você tem que retirar a armadura porque o corpo não aguenta mais arrastá-la. Quando você tem que depor todas as armas porque não há mais forças para empunhá-las. Quando a dor que se traz sob a pele não é resolvida em farmácias, hospitais, igrejas, bares, lojas de conveniências, postos de gasolina e sei lá mais aonde, eu ia lhe dedicar uma oração enquanto minha alma desertaria meu corpo e vagaria por desertos longínquos. Numa dessas madrugadas estropiadas eu entregaria os pontos e diria; tudo bem, eu perdi... eu aceito..eu perdi..aqui estou. Não há o que dizer, o que esconder... estou nu e moído até o osso...não preciso fingir pra mim mesmo, pois essa é a pior mentira...não preciso arrancar o rosto para sobrepor um outro...Sim, numa dessas madrugadas em que um segundo pode lhe custar a vida, eu ia tentar reconstruir todas as pontes, todos os caminhos de volta, mas carregando em mim uma dor que ainda achava que podia ser mais do que isso, eu ia enfim! perceber que não era mais possível. Não, não era. Ficaram as canções do Elvis. Escrevi esse conto ouvindo: Are you lonesome tonight? (no repeat)
Tudo uma maravilha por aqui, meu amigo, curti cada post, excelente. Indicarei nas minhas páginas. Aguarde.
ResponderExcluirAbração
www.luizalbertomachado.com.br
Bessa, que texto. Você colheu as palavras e agora estou sem.
ResponderExcluir"Pardon me, if I’m sentimental
When we say goodbye
Don't be angry with me should I cry
When you're gone, yet I’ll dream
A little dream as years go by
Now and then there's a fool such as I...:
Elvis
Alice
Bessa
ResponderExcluirNão sei se um escritor já nasce pronto e um belo dia resolve vomitar seu silêncio, ou se ele vai se transformando com o tempo...Acho que os dois!
Na realidade queria te dizer que o blog tá muito bacana, gostoso mesmo de ler...bate uma saudade...mas mato-a aqui! Pelo menos enquanto não abrirmos nossa proxima garrafa...
Grande beijo meu amigo! Parabéns!
essa sua delicadeza com as palavras é uma porcelana morando nos meus olhos.
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