Espertos

sábado, 15 de maio de 2010

15/05/2010 - 20h30

Uma noite negra. Tão negra que se suicidou de escuro.81 anos em ruinas.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Alice disse:

son corps est
le seul argument
que je ne sais réfuter
(um dos poemas do meu livro "Outros Barulhos"
traduzido pela poeta francesa Tânia Alice)

seu corpo é
o único argumento
que não sei refutar

Alegria

Acordei com o peito aberto
como um grande livro 
folheado pelo vento

terça-feira, 11 de maio de 2010

Algarobas Urbanas

Meu livro de contos Algarobas Urbanas foi um dos livros selecionados no concurso de literatura do Sesc São Paulo (Vila Mariana) 2010, em parceria com a editora Record.

"Outros Barulhos- Poemas"


Conheça meu primeiro livro "Outros Barulhos- Poemas" - Prêmio Jabuti 2009 (Poesia) e também foi um dos livros concorrentes do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009. Orelha do poeta Fabricio Carpinejar.

Uma seleta do livro

hoje nenhuma palavra
a ser dita
nenhum grito,
nenhum silêncio
saudade nenhuma
nada
apenas um dia
que despencou do
calendário

----------------------------

uma noite

minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
“mamãe, o que elas têm?”

--------------------------

deixa disso
siga o risco
o que é a vida

se não olho e cisco?
seja arisco
sangra o resto
o que é a morte
se não sábio disco?
nunca teremos o pouco aquém do menos
nunca seremos o muito além do mais
a cota será certa
a senda será meta
sempre serena será
a reta eterna da
raça toda

-----------------------------

hoje sonetos
amanhã só netos

-----------------------------

rio de fevereiro,
quando alguém me diz:
só em março, depois do carnaval
rio de março,
o ano só começa em abril
rio de abril,
o primeiro dia é quando somos sinceros
rio de maio,
desse, rio demais
é o mês do meu aniversário e
não há nada pra comemorar
rio de junho,
o carnaval ainda não acabou
rio de julho,
não há motivos, por isso rio
rio de agosto,
mais pra lá do que pra cá, mas ainda riso
rio de setembro
o dia sete é uma boa piada
rio de outubro
sou uma criança, mas eles não acreditam
rio de novembro
o ano seguinte já mostra o seu riso amarelo
rio de dezembro
o vizinho me sorri, só porque é natal
em janeiro não rio
meu riso tira férias
vai ao Rio de Janeiro
curtir um choro

----------------------------

entre a caneta e o
guardanapo; um dilema
eu não sabia se tentava ou se
ia ao cinema
não fiz uma coisa nem outra
assoei o nariz com o quase-poema
ah! chega!
com ele ou sem ele
nada muda
é tudo cena

------------------------------

os vestidos escondem
mais segredos do que o mar

-------------------------------

os macacos
desceram das árvores
aí nasceu o trabalho,
a infidelidade, o divórcio e
o apartamento de um dormitório

------------------------------

seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar

------------------------------

seus olhos
são meu livro de cabeceira

domingo, 9 de maio de 2010

"Algumas músicas me soam como navalhas"

Apenas uma noite estranha

Sabia que não devia ligar, sim, claro! que sabia, ainda mais àquela hora, mas era uma noite muito estranha. Até tentei fazer outras coisas, mas só conseguia pensar em ligar. Porque às vezes estamos tão fortes e noutras totalmente em frangalhos? Se eu ligar só vou piorar as coisas, sei, mas quero ligar. Porque eu estava tão infeliz com a felicidade dela? Por quê? Ela estava recomeçando a vida. Agora eu tinha que seguir o meu caminho. Você sabe disso, então porque insiste? Vá dormir. Nada é tão drástico quanto aparenta. Simplesmente deite e durma. Só isso. Deitei-me, fechei os olhos, prendi a respiração, soltei. Deixei o meu corpo encher de ar. Podia sentir meu coração. Podia ver sua cor, seu tamanho, sua ira. Os tiquetaques do despertador eram como alfinetes em meu cérebro. Levantei-me num pulo. Olhei para o telefone. Fui colocar uma dose de uísque, mas não tive paciência, tomei na garrafa. E se ela me visse fazendo isso? Puta, puta, puta, quem disse que você podia deixar de gostar de mim? A única coisa que esse filho da mãe tem que eu não tenho é pouco tempo com você. Eu nasci com você, além do tempo todo que vivemos juntos. Ela disse pra não ligar mais e principalmente fora de hora. O que você quer mais? Vá dormir, vá dormir. Você só vai embaçar ainda mais as coisas. Ela vai te mandar a merda e essa noite pode ficar ainda pior. Sentei-me ereto, tenso como se estivesse diante de um animal prestes a me atacar. Olhos sobre o telefone. O ponteiro das horas duas horas a frente da anterior. Lembrou-se quando terminaram pela primeira vez. Logo depois de alguns dias ela ligou desesperada pedindo que ele voltasse. Voltou no ato. Só estava esperando isso. Porque ela não fazia o mesmo agora? Por quê? Vou ligar, vou ligar. Essa sala escura, esse silêncio pegajoso, não dá mais...num movimento brusco pegou o telefone e discou sem pensar. Isso para que nenhum pensamento pudesse impedi-lo de continuar discando. Ouviu o toque da primeira chamada. Uma dor fina cruzou suas costas. Seu corpo todo enrijeceu. Foi preciso quatro toques e no terceiro ele teve ímpetos de desligar, mas sem saber por que se manteve firme onde estava, então ouviu:

Alô (ela)
Preciso que venha aqui, preciso de você (ele)
Você sabe que isso é impossível. (ela)
Por quê? (ele)
Escuta, te falei pra não ligar mais, olha a hora. Você me acordou. Estou cansada, amanhã levanto cedo. (ela)
Por favor! (ele)
Impossível. (ela)
Sua palavra predileta. Venha, preciso mesmo de você. Tenho algo a dizer. (ele)
Não quero saber. Tenho outra vida, outros desejos, outros sonhos. Sua vida não me diz mais respeito. Você não entende e não tenho mais saco pra explicar. Quero só dormir. (ela)
(ele ouviu um “quem é?” um pouco mais baixo que a voz dela)
Vá se foder. (ele disse com a voz mais alta que a voz dela para a voz mais baixa que a dela)
(ela ficou em silencio. Pareceu não saber o que fazer)
(ouviu a mesma voz do "quem é?"dizer “você ainda não resolveu isso, amor?")
(Ele trincou os dentes e apertou o telefone)
Já, meu amor, ele é que é surdo. (ela para o outro)
Olha! vá dormir. Você está acordando todo mundo. (ela)
Não consigo. Até tentei, mas já vi que não dá. (ele)
Olha, não vou mais à sua casa. Acabou faz tempo. Você tem que seguir com sua vida (ela)
Essa é a minha vida. Estou seguindo com ela (ele)
Não, você está desperdiçando-a (ela)
Cada um desperdiça a sua maneira. (ele)
Chega. Tchau. Não aguento mais isso...
(enquanto ela falava ele quis desligar, mas...)
Espera (ele)
O que foi agora? (ela)
(Silêncio)
Eu te amo (ele)
Ah! Chega, chega e chega, tchau mesmo (ela bateu o telefone)

Ele até pensou em ligar de novo, mas não teve forças. Estava realmente cansado. Olhou a sua volta. Nenhum ruído, nada. Todo o silencio do mundo pareceu ter invadido sua casa. Lembrou do sorriso dela. Ninguém sorria como ela. Foi a primeira coisa que lhe chamou atenção nela. Estava muito cansado. Queria chorar, mas de que isso adiantaria? Mesmo assim chorou. O cansaço o venceu: adormeceu. Sonhou que todo o ar do seu corpo era sugado por alguém, um desconhecido. Ele não podia impedir. Seu ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Quando atingiu o limite, soltou um grito como se agora quisesse mesmo acordar o mundo. Despertou abruptamente. Não estava mais na sala. Estava na cama. Ela estava ao seu lado e ele pôde ouvi-la dizer “Volte a dormir, meu amor, foi só um pesadelo. Ainda respirando com dificuldade, ele olhou em volta e percebeu que estava em sua casa de sempre. A casa da qual nunca saíra. Deitou-se. Ela se enroscou nele como de costume e ele a abraçou como nunca fizera.

Minha humanidade.

Celulares e Ipods: Duas formas sofisticadas de se fugir das pessoas. Ainda lembro-me quando levávamos um fora da namorada ou estávamos conhecendo uma outra, ou brigávamos com nossos pais (geralmente sem motivos) ou perdíamos um emprego (que geralmente não valia nada) ou simplesmente sentíamos a vontade de conversar (mesmo sem nenhum assunto) ligávamos para aquele grande amigo(a) e entre uma breja e outra conversávamos até achar que o assunto se esgotara. Isso já faz um tempo. Não lembro da última. Agora só temos tempo para resolver essas coisinhas pelo celular, quando não, por emails, msns, facebooks, orkuts e outros tantos meios que aparecem de tempos em tempos. Pessoalmente nem pensar.

Hoje dificilmente vemos uma pessoa sem um telefone celular. Raramente alguém não está usando-o. Quando não está nos ouvidos, está entre dedos ansiosos: Velhos, adultos; adolescentes; crianças. Talvez num futuro próximo até os animais. Imagine uma vaca passando ao seu lado e mugindo nervosamente ao celular.

Porque de repente tanta gente passou a ter tanto o que dizer? O que detonou isso?As pessoas tem telefone celular porque precisam falar ou precisam falar porque tem telefone celular? Sei lá. Sempre vejo muita gente falando horas ao telefone e ao desligar, colocando o fone do seu Ipod nos ouvidos. Não conseguimos mais viver o mundo externo? Nos cansamos do outro ou não conseguimos mais encará-lo? A boca não consegue ser tão sincera quanto os olhos? Talvez não seja a toa quando dizem que o olhar é a avenida da alma.

Nas ruas, muitas vezes respondo perguntas que não me foram dirigidas e quando olho em volta, percebo  que é alguém ao celular só que usando seus respectivos fones. Parecem lunáticos falando sozinhos. Isso me remete aos loucos que encontrávamos pelas ruas em febris solilóquios quando escapavam do asilo que ficava perto da minha casa quando eu era criança Pelo jeito não eram tão loucos assim. Estavam só cantando o futuro?

Todos nós temos os nossos dias. Ninguém é de ferro. Muitas vezes quero ficar em casa num dia só pra mim. Não quero falar com ninguém, ver ninguém, mas na maioria das vezes adoro sair pras ruas só pra ver as pessoas. Vê-las falando, andando, comprando, vendendo, sorrindo, chorando, brigando. Cada um vivendo como pode e sabe. Muitas vezes faço isso, não só porque curto muito e porque gosto das pessoas – apesar de também ter os meus dias de assombros – mas porque sei que essa é a minha humanidade e eu tenho obrigação de fazer parte dela. Não posso afirmar que existirá outra, pode ser, mas talvez não seja minha.