Conheci Aniah num Hostel em Marseille. Vinha da praia. Soube disso logo que despontou no portão, pois seus jeans estavam úmidos, denunciando que ela os havia vestido por cima da roupa ainda molhada. Fazia o meu cigarro sem tirar os olhos de cima dela. Caminhava rápida, decidida, descolada. Jogou seus grandes olhos azuis sobre mim e perguntou "have you got a cigaret?” falei que sim e perguntei se queria fazer ou preferia que eu o fizesse. Ela disse que faria, sem problemas. Falou que o bom de fumar esses cigarros é que se tem prazer duplo: O de fazer e o de fumar. Eu me gabava de fazer o meu cigarro num tempo recorde de trinta segundos. Ela fez em quinze: Prendeu o filtro nos lábios, pegou o papel com uma mão, um pouco de fumo com a outra, jogou o filtro dentro, lambeu, enrolou e pronto. Deu as costas para o vento e em três clics acendeu o cigarro. Agora ela vai desaparecer de mim. Pensei. Assim faziam as beldades na Europa: Muito simpáticas, pediam cigarros e depois desapareciam. Muitas vezes nem agradeciam. Aniah deu uma primeira tragada olhando para o cigarro, sorriu, sentou-se, deu outra tragada ainda olhando para o cigarro e depois olhou o horizonte, enquanto seu lábio superior brincava com três piercings encravados no lábio inferior. Fumava e olhava longe. Era como se tragasse o tempo: Passado, presente e futuro brotando dos belos lábios de Aniah. Eu a olhava em silêncio. Perguntei-lhe de onde era. De Berna, respondeu-me. “A cidade das beldades de porcelana” Pensei. Depois lhe perguntei se estava no hostel. Disse que não. Não havia mais vagas. Havia guardado sua mochila na recepção só para tomar um banho de mar. Falou que ia tomar uma ducha e depois precisava ir embora. Não sabia ainda pra onde, pensaria nisso depois. Ia zanzar um pouco por Marseille. No dia seguinte viajaria pra Berlim. Terminou o cigarro, levantou-se, bateu as palmas e as costas das mãos nas coxas para espanar a fina areia da praia, sorriu e disse que precisava ir. Se foi com dificuldade. Sabia que meus olhos a seguravam.
Depois do almoço saí para fumar e lá estava ela; sozinha, pensativa. A Bela, triste e lânguida Aniah. O vento brincando com suas longas mechas douradas. O mar louco por ela. So do I. Me aproximei. What’s up. Falei enquanto lhe passava o fumo, a seda e o filtro. Ela me olhou, sorriu e enquanto preparava seu cigarrinho me perguntou se eu conhecia Norah Jones. Não, eu não a conhecia. Respondi. É uma bela cantora. Rebateu. Depois falou: Olha tenho duas garrafas de vinho nas minhas coisas e tenho todos os discos da Norah Jones, que tal? Fechado. Falei. Passamos toda a noite ouvindo Norah, tomando vinho (fui comprar mais três garrafas) conversando muito, fumando e rindo de tudo e de todos. Quando ela ria mesmo – e eu ainda não a tinha visto rindo mesmo – Marseille estremecia de felicidade, ou seria eu? Sei lá...
Quando a luz da manhã riscou de leve o céu, ela ainda falava como se só fosse viver esse dia. Contou-me toda a sua vida. Disse que estava viajando há mais de um ano. Disse que não podia parar, pois se parasse, acabaria pensando, e tudo que não queria era pensar. Só queria as estradas. Disse também que procurava algo, mas não sabia bem o que. Eu lhe perguntei como poderia encontrar essa coisa se não sabia o que era. Ela disse-me que talvez essa coisa a encontrasse. Falou, falou. Depois de um silêncio impenetrável, me propôs um banho de mar. Levantou-se como se fosse fugir e ficou nua em pelo, Depois correu pra água, gritando: Let’s go! Let’s go! Bessá. Mergulhou como uma exímia nadadora e desapareceu por algum tempo. Eu ainda vestido, fumando e tremendo de frio e vinho, fiquei tentando adivinhar o ponto exato na água onde ela surgiria logo após o mergulho. Eu continuava lá olhando, mas ela não aparecia. Meu sorriso foi desmanchando-se. Franzi a testa e fiquei inquieto. O mar estava parado. Lembrei-me de uma canção cantada por Mercedes Sosa que fala de uma mulher que desaparece no mar. Ninguém fica tanto tempo assim debaixo d’água. Pensei. Olhei em volta. Coloquei as mãos na cabeça e quando pensava em sair gritando o seu nome nos ouvidos de um mar silencioso, ela surgiu ao longe e acenou pra mim. Sentei-me na areia e ri como um idiota. Ela voltou e me chamou. Cheia de energia, espanava a água. Entrei. Ela se aproximou lentamente e me abraçou forte. O esforço que fizera anteriormente despertara cada centímetro do seu corpo. Era como se eu estivesse abraçando algo prestes a explodir ou um animalzinho que estivera em fuga. Isso foi ficando cada vez mais forte e de repente ela arrebentou. Como uma criança, chorou em meu ombro e eu precisei me segurar. Depois olhou pra mim. Os lábios vermelhos demais, os olhos azuis demais. Eu olhei pra ela e não conseguia mais tirar os olhos.
Feito dois zumbis rodamos o dia todo. Ela tinha que ir pra Berlim em poucas horas. Caminhávamos em silêncio. Perguntei se os piercings tinham algum significado. Ela disse-me que eram seus três melhores amigos. Ela viajava com eles. Com os três amigos em seus lábios. Ela parecia preocupada. Perguntei o que lhe afligia. Não respondeu. Depois de alguns minutos olhou rapidamente pra mim e disse “não vou pra Berlim hoje, vou amanhã” Não perguntei por quê. Voltamos para o Hostel. Era quase noite. Ela entrou decidida. Pegou algumas coisas em sua mochila, olhou pra mim e foi tomar uma ducha. Eu fui depois. Nos encontramos no hall e pedi dois cafés bem quentes. Quase já de madrugada ela começou a cochilar no sofá. Fiquei olhando-a. Já era um vício. Depois de um tempo peguei-a e levei-a para minha cama. A madrugada estava muito fria. Agasalhei-a e sai. Fechei a porta. Fui lá fora e fiz mais um cigarro. Era bom pensar que ela estava em minha cama. Deitei-me no sofá e acabei pegando no sono. A recepcionista me perguntou por que eu não estava em meu quarto. Disse-lhe que o pessoal tava roncando muito e eu não conseguia dormir. Ela se deu por satisfeita e não me incomodou mais. Ela não podia saber que havia alguém lá que não fosse eu. Era um grande motivo para nos expulsar. Acordei com Aniah me chamando. Me puxava pelo braço como um guia conduzindo um homem ao paraíso. Deitamos na cama. Ela se enroscou em mim. Senti seu corpo trepidando, se chegando mais e mais.
De manhã, logo bem cedo, não a encontrei ao meu lado. Procurei algum bilhete, algum sinal dela, mas não achei nada. Ao meio dia ela voltou. Tinha um quarto piercing em seus lábios e disse que se chamava Bessá. Eu ri. Almoçamos e depois fui deixá-la no aeroporto. Estávamos em silêncio. Eu procurava as palavras, mas não as encontrava. Vez em quando ela me olhava feito uma esfinge aflita. O Aéroport de Marseille Provence estava bem agitado. Tomamos alguns cafés e fumamos infinitos cigarros.
Seus piercings tilintaram em meus dentes. Depois de um longo abraço ela se foi e começou a desaparecer no corredor. A sala de embarque a engolia. Aniah parecia decidida a não olhar mais pra trás, mas virou-se de repente e seu rosto estava muito vermelho. Trinquei os dentes como se isso pudesse evitar as lágrimas. Não adiantou nada. Falei pra mim mesmo Aniah, Aniah. Ela desapareceu. Zanzei pelo aeroporto. Não encontrava a porta de saída. Não me achava. Cheguei ao Hostel como se tivesse o dobro do meu peso e ai daquele que viesse com essa coisinha de Where are you from? Eu seria capaz de socá-lo. Saí e entrei diversas vezes do Hostel. Meus olhos ficaram presos no portão na ânsia absurda de ver Aniah despontar linda, lânguida, decidida, descolada e com seus jeans úmidos. Lembrei-me dela me perguntando em seu sotaque carregado Have you got a cigaret? Isso nunca mais aconteceria. Eu sabia disso. À noite tentei dormir, mas a minha cama era o pior lugar pra tentar esquecê-la. O cheiro de Aniah estava lá: Nos travesseiros, no lençol, nos cobertores, por todo o quarto. Saí da cama num pulo e corri lá pra fora. A madrugada fria bafejou em minha cara. Fumei um, dois, três cigarros. Fazia-os e dizia: Aniah, Aniah. Fumava-os e dizia: Aniah, Aniah. Ela estava encravada em minha alma como os piercings em seus lábios. Olhei a minha volta. Silêncio. Dava pra ouvir o mar no seu vai e vem. A vida era assim. Vai e vem. Sempre isso. Fiz um cigarro, não, dois. Fumei um e deixei o outro em cima do banco. Era o de Aniah. Entrei e caí na cama como se me atirasse em um buraco e já sabendo que a coisa viria. Agarrei-me em seu cheiro. Era só o que eu tinha e a coisa veio mesmo.