Espertos

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ainda algumas lembranças ll

Conheci Aniah num Hostel em Marseille. Vinha da praia. Soube disso logo que despontou no portão, pois seus jeans estavam úmidos, denunciando que ela os havia vestido por cima da roupa ainda molhada. Fazia o meu cigarro sem tirar os olhos de cima dela. Caminhava rápida, decidida, descolada. Jogou seus grandes olhos azuis sobre mim e perguntou "have you got a cigaret?” falei que sim e perguntei se queria fazer ou preferia que eu o fizesse. Ela disse que faria, sem problemas. Falou que o bom de fumar esses cigarros é que se tem prazer duplo: O de fazer e o de fumar. Eu me gabava de fazer o meu cigarro num tempo recorde de trinta segundos. Ela fez em quinze: Prendeu o filtro nos lábios, pegou o papel com uma mão, um pouco de fumo com a outra, jogou o filtro dentro, lambeu, enrolou e pronto. Deu as costas para o vento e em três clics acendeu o cigarro. Agora ela vai desaparecer de mim. Pensei. Assim faziam as beldades na Europa: Muito simpáticas, pediam cigarros e depois desapareciam. Muitas vezes nem agradeciam. Aniah deu uma primeira tragada olhando para o cigarro, sorriu, sentou-se, deu outra tragada ainda olhando para o cigarro e depois olhou o horizonte, enquanto seu lábio superior brincava com três piercings encravados no lábio inferior. Fumava e olhava longe. Era como se tragasse o tempo: Passado, presente e futuro brotando dos belos lábios de Aniah. Eu a olhava em silêncio. Perguntei-lhe de onde era. De Berna, respondeu-me. “A cidade das beldades de porcelana” Pensei. Depois lhe perguntei se estava no hostel. Disse que não. Não havia mais vagas. Havia guardado sua mochila na recepção só para tomar um banho de mar. Falou que ia tomar uma ducha e depois precisava ir embora. Não sabia ainda pra onde, pensaria nisso depois. Ia zanzar um pouco por Marseille. No dia seguinte viajaria pra Berlim. Terminou o cigarro, levantou-se, bateu as palmas e as costas das mãos nas coxas para espanar a fina areia da praia, sorriu e disse que precisava ir. Se foi com dificuldade. Sabia que meus olhos a seguravam.

Depois do almoço saí para fumar e lá estava ela; sozinha, pensativa. A Bela, triste e lânguida Aniah. O vento brincando com suas longas mechas douradas. O mar louco por ela. So do I. Me aproximei. What’s up. Falei enquanto lhe passava o fumo, a seda e o filtro. Ela me olhou, sorriu e enquanto preparava seu cigarrinho me perguntou se eu conhecia Norah Jones. Não, eu não a conhecia. Respondi. É uma bela cantora. Rebateu. Depois falou: Olha tenho duas garrafas de vinho nas minhas coisas e tenho todos os discos da Norah Jones, que tal? Fechado. Falei. Passamos toda a noite ouvindo Norah, tomando vinho (fui comprar mais três garrafas) conversando muito, fumando e rindo de tudo e de todos. Quando ela ria mesmo – e eu ainda não a tinha visto rindo mesmo – Marseille estremecia de felicidade, ou seria eu? Sei lá...

Quando a luz da manhã riscou de leve o céu, ela ainda falava como se só fosse viver esse dia. Contou-me toda a sua vida. Disse que estava viajando há mais de um ano. Disse que não podia parar, pois se parasse, acabaria pensando, e tudo que não queria era pensar. Só queria as estradas. Disse também que procurava algo, mas não sabia bem o que. Eu lhe perguntei como poderia encontrar essa coisa se não sabia o que era. Ela disse-me que talvez essa coisa a encontrasse. Falou, falou. Depois de um silêncio impenetrável, me propôs um banho de mar. Levantou-se como se fosse fugir e ficou nua em pelo, Depois correu pra água, gritando: Let’s go! Let’s go! Bessá. Mergulhou como uma exímia nadadora e desapareceu por algum tempo. Eu ainda vestido, fumando e tremendo de frio e vinho, fiquei tentando adivinhar o ponto exato na água onde ela surgiria logo após o mergulho. Eu continuava lá olhando, mas ela não aparecia. Meu sorriso foi desmanchando-se. Franzi a testa e fiquei inquieto. O mar estava parado. Lembrei-me de uma canção cantada por Mercedes Sosa que fala de uma mulher que desaparece no mar. Ninguém fica tanto tempo assim debaixo d’água. Pensei. Olhei em volta. Coloquei as mãos na cabeça e quando pensava em sair gritando o seu nome nos ouvidos de um mar silencioso, ela surgiu ao longe e acenou pra mim. Sentei-me na areia e ri como um idiota. Ela voltou e me chamou. Cheia de energia, espanava a água. Entrei. Ela se aproximou lentamente e me abraçou forte. O esforço que fizera anteriormente despertara cada centímetro do seu corpo. Era como se eu estivesse abraçando algo prestes a explodir ou um animalzinho que estivera em fuga. Isso foi ficando cada vez mais forte e de repente ela arrebentou. Como uma criança, chorou em meu ombro e eu precisei me segurar. Depois olhou pra mim. Os lábios vermelhos demais, os olhos azuis demais. Eu olhei pra ela e não conseguia mais tirar os olhos.

Feito dois zumbis rodamos o dia todo. Ela tinha que ir pra Berlim em poucas horas. Caminhávamos em silêncio. Perguntei se os piercings tinham algum significado. Ela disse-me que eram seus três melhores amigos. Ela viajava com eles. Com os três amigos em seus lábios. Ela parecia preocupada. Perguntei o que lhe afligia. Não respondeu. Depois de alguns minutos olhou rapidamente pra mim e disse “não vou pra Berlim hoje, vou amanhã” Não perguntei por quê. Voltamos para o Hostel. Era quase noite. Ela entrou decidida. Pegou algumas coisas em sua mochila, olhou pra mim e foi tomar uma ducha. Eu fui depois. Nos encontramos no hall e pedi dois cafés bem quentes. Quase já de madrugada ela começou a cochilar no sofá. Fiquei olhando-a. Já era um vício. Depois de um tempo peguei-a e levei-a para minha cama. A madrugada estava muito fria. Agasalhei-a e sai. Fechei a porta. Fui lá fora e fiz mais um cigarro. Era bom pensar que ela estava em minha cama. Deitei-me no sofá e acabei pegando no sono. A recepcionista me perguntou por que eu não estava em meu quarto. Disse-lhe que o pessoal tava roncando muito e eu não conseguia dormir. Ela se deu por satisfeita e não me incomodou mais. Ela não podia saber que havia alguém lá que não fosse eu. Era um grande motivo para nos expulsar. Acordei com Aniah me chamando. Me puxava pelo braço como um guia conduzindo um homem ao paraíso. Deitamos na cama. Ela se enroscou em mim. Senti seu corpo trepidando, se chegando mais e mais.

De manhã, logo bem cedo, não a encontrei ao meu lado. Procurei algum bilhete, algum sinal dela, mas não achei nada. Ao meio dia ela voltou. Tinha um quarto piercing em seus lábios e disse que se chamava Bessá. Eu ri. Almoçamos e depois fui deixá-la no aeroporto. Estávamos em silêncio. Eu procurava as palavras, mas não as encontrava. Vez em quando ela me olhava feito uma esfinge aflita. O Aéroport de Marseille Provence estava bem agitado. Tomamos alguns cafés e fumamos infinitos cigarros.

Seus piercings tilintaram em meus dentes. Depois de um longo abraço ela se foi e começou a desaparecer no corredor. A sala de embarque a engolia. Aniah parecia decidida a não olhar mais pra trás, mas virou-se de repente e seu rosto estava muito vermelho. Trinquei os dentes como se isso pudesse evitar as lágrimas. Não adiantou nada. Falei pra mim mesmo Aniah, Aniah. Ela desapareceu. Zanzei pelo aeroporto. Não encontrava a porta de saída. Não me achava. Cheguei ao Hostel como se tivesse o dobro do meu peso e ai daquele que viesse com essa coisinha de Where are you from? Eu seria capaz de socá-lo. Saí e entrei diversas vezes do Hostel. Meus olhos ficaram presos no portão na ânsia absurda de ver Aniah despontar linda, lânguida, decidida, descolada e com seus jeans úmidos. Lembrei-me dela me perguntando em seu sotaque carregado Have you got a cigaret? Isso nunca mais aconteceria. Eu sabia disso. À noite tentei dormir, mas a minha cama era o pior lugar pra tentar esquecê-la. O cheiro de Aniah estava lá: Nos travesseiros, no lençol, nos cobertores, por todo o quarto. Saí da cama num pulo e corri lá pra fora. A madrugada fria bafejou em minha cara. Fumei um, dois, três cigarros. Fazia-os e dizia: Aniah, Aniah. Fumava-os e dizia: Aniah, Aniah. Ela estava encravada em minha alma como os piercings em seus lábios. Olhei a minha volta. Silêncio. Dava pra ouvir o mar no seu vai e vem. A vida era assim. Vai e vem. Sempre isso. Fiz um cigarro, não, dois. Fumei um e deixei o outro em cima do banco. Era o de Aniah. Entrei e caí na cama como se me atirasse em um buraco e já sabendo que a coisa viria. Agarrei-me em seu cheiro. Era só o que eu tinha e a coisa veio mesmo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Desconfiança

Nem as estrelas são confiáveis. Você olha bem dentro dos olhos delas, mas quem pode afirmar que estão mesmo ainda lá? E eu, estou mesmo aqui?

domingo, 6 de junho de 2010

Barulhos de Antonio Miranda

Reynaldo Bessa concorreu com os maiores da nossa poesia até chegar ao Prêmio Jabuti, e saiu na frente... melhor não citar nomes. É fácil entender a razão (justa) do reconhecimento: um texto emocionante, aparentemente despretensioso, mas pungente, numa autobiografia reinventada, entre surreal e cruelmente realista. Linguagem contemporânea, sem rebuscamentos retóricos, sem apelar para os coloquialismos banais e os barroquismos excessivos de outros autores que locupletam blogues e revistas literárias. Barulho é o que não falta na obra do jovem potiguar. Se não bastassem os versos criativos e definitivos, é compositor e exibe uma voz emocionante, com aqueles desdobramentos sonoros que apenas os nordestinos trazem em sua musicalidade.”

Antonio Miranda
Poeta, escritor, dramaturgo e escultor
Membro da Academia de Letras do Distrito Federal
Diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia

Seleta de "Outros Barulhos - Poemas" (Prêmio Jabuti 2009) poemas em português-inglês (tradução de Sergio Ivanchuk)

uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"

one night
my mother
grabbed my hand
we were four;
me, her, fear and rush
I can remember that...perfectly
while the three talked
I was staring at the sad houses' eyes and
I really wanted to ask
"Mom, what's their problem?
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.

like small pictures sealed
on the horizon,
ships came and left - still
they ran away from our eyes
the border, land, distant places,
I used to be on board far far away, begging;
ships, ships, take me nowhere.

quando cai da rede
vi que eu existia mesmo
minha mae apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu nao existia mesmo
quando cai da rede.


when I fell from the hammock
I realized that I really existed
My mom came by the door
Soon, my daddy, naked, was born by a shadow and took her away
he wanted to finish fucking her, and me — it seemed.
both vanished in the shadows silently
then I saw I did not exist at all
when I fell from the hammock

quando eu tinha oito anos
descobri o tempo.
ele estava numa plaqueta,
numa mercearia
dizia:" fiado só amanhã"
foi aí que percebi que o tempo
não posa para fotos

when I was eight
found out the time
it was on grocery store warning sign:
"buying on credit only tomorrow"
then I realized that the time
does not stop to take photos

um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?

one day
barefoot I walked among puddles
left by the rain
my feet shook the stars,
poured the sky
there were lightning bolts and I was not afraid.
how can a hungry person
fear lightning bolts?

Barulhos de Nelson de Oliveira

Enquanto a prosa dos novos autores brasileiros se fixa no bizarro e no grotesco, a lírica concentra-se no sublime e na memória. Se real ou inventada, não importa. Como não importam também os choques ideológicos nem a militância em defesa dessa ou daquela poética (marginal, pop, conservadora, concreta etc.)
Reynaldo Bessa é músico, com cinco CDs na praça.
Familiarizado com harmonias e melodias sonoras e verbais, ele sabe que uma boa letra de música não é necessariamente um poema. Algumas são, mas muito poucas.
Para o Reynaldo poeta, um bom poema é mais do que qualquer outra coisa, um tipo peculiar de barulho, não de música.
Os poemas de “Outros Barulhos” em português e inglês, denunciam um pai, uma mãe, uma infância, uma adolescência superficiais. Mas, há alumbramentos, sustos luminosos. Há beleza na banalidade. E é o movimento dialético – a verdade no falso – que faz desse eu lírico ruidoso uma instância chamada “mal-estar”

Nelson de Olivieira
Escritor e Mestre em Letras pela USP.
APCA 2001 e 2003