eu lavava as mãos.
havia dois tipos de água - ele dizia:
água com e sem luz
havia uma casa enorme
um homem velho por fora jantava bem no meio da sala também enorme
ouvi uma voz de mulher que ditava o que havia no jantar
a porta estava semi-aberta e enquanto eu passava, o velho me olhou de relance:
nem simpatia e nem desdém, apenas um olhar técnico.
um enorme jardim. Um brinquedo quebrado. Ruas sem fim. Outro tempo.
Uma alameda, folhas quase beijando o chão.
A lua enorme parecia presa nos galhos das árvores que fechavam o céu.
café charmosos dos dois lados.
pessoas com cardápios presos ao peito e sorrindo como se me conhecessem.
eu sabia que era um estranho ali.
havia uma saudade, ainda uma dor, mas pareciam distantes ou dentro de um outro tempo. Não havia medo.
eu não queria ser, eu era.
Não queria ir, eu ia.
e viver era isso.
(Reynaldo Bessa)