Espertos

sábado, 24 de julho de 2010

Are you lonesome tonight?

Ela apareceu de repente. Foi como se tivesse esgueirado-se pelas fendas do irreal e se postado bem ali na minha frente, dentro do real, onde tudo ainda doía: as paredes, os quadros, as ruas, as árvores, as folhas, os semáforos, o chão, os carros, as pessoas, as luzes, a tarde, tudo. Tudo isso ainda doendo sob as pálpebras do tempo. Quando ela me olhou de frente, mais ou menos como uma execução sumária, perdi completamente a noção do que acontecia à minha volta. Ela já tinha o controle de tudo, não sabia, mas tinha. A primeira coisa que me tirou o fôlego e a capacidade de tentar escapar dessa armadilha foi a sagacidade verde que emanava do seu olhar. Ah! Os seus olhos: duas lâminas verdes e afiadas. Eu os olhava e me dava uma tremenda vontade de mergulhar fundo. E eu mergulhei. Não devia, mas mergulhei. O que eu poderia ter feito? Digam-me. Até porque também havia sua boca cheia de beijos arquivados e histórias sob a língua. Histórias, que no breve curso dessa explosão, eu as ouviria com olhos famintos e coração trepidando.

Convidei-a para um café com receio que ela fizesse como a menina, que vez ou outra invadia meus sonhos: toda vez que eu tentava tocá-la ou mesmo me aproximar, escapava e a única coisa que me deixava era a incerteza de voltar um dia. Para meu espanto, ela aceitou, e exultante, esqueci, por um momento, a menina dos meus sonhos e as coisas doendo lá dentro.

Entre um gole e outro de café, enquanto a xícara tocava seus lábios imponentes como uma catedral, eu me perguntava se deveria ficar ali ou sair o quanto antes, pois o medo; esse bebê chorão bem no meio do meu peito não me deixava em paz. Ele e sempre ele.

Começou a chover. Saímos sob um guarda-chuva estropiado pelos ventos alucinados de um Fevereiro úmido. O que aconteceu depois? Ora, o que um homem e uma mulher podem fazer quando acham que não existe nada, nada mais além dos dois?

Um dia saí de sua casa e caminhei quilômetros a fio. Não conseguia parar. Não tinha medo de nada. Sentia-me como que caminhando numa outra camada da noite. Como se as pessoas pudessem me ver, mas não me tocar, entendem? Então eu caminhava, caminhava e nada teria me parado. Depois de muitas horas, cheguei em casa e continuei caminhando por ela e continuaria assim, se por um átimo, não tivesse pensado que o êxtase também pode carregar o poder de aniquilar.

Lembro-me de nossas voltas melancólicas, quando ela, cheia de energia, resolvia me acompanhar até minha casa. Deslizávamos pela madrugada tão silenciosa que até podíamos ouvir o estalar dos semáforos como ossos se partindo. Nos postes, sob os bocais, escorriam lágrimas douradas. Eu olhava as ruas. O que elas tinham que mexiam tanto comigo? Porque toda essa nostalgia quando eu estava diante delas? Os néons continuavam tentando me dizer alguma coisa. O Elvis vibrava no discplayer, mas era como se estivesse ali, entre nós, no banco de trás e eu pudesse, a qualquer momento lhe perguntar alguma coisa. Eram canções que eu tinha ouvido muito na adolescência, mas que só agora entendia perfeitamente o que realmente diziam:...Você olha para a porta e me imagina ali? Seu coração está cheio de dor? será que eu voltarei? Diga-me querida, você está solitária hoje? Ou:...querida você mentiu quando disse que me amava... mas eu prefiro continuar ouvindo suas mentiras a viver sem você...Ou: ...agora o palco está inutilizado e eu estou aqui parado com o vazio à minha volta e se você não irá voltar pra mim, então faça com que baixem as cortinas...

Nos olhávamos e ponto: tudo estava dito. Tudo já havia sido feito. Vez ou outra ela assumia um jeito muito peculiar de dirigir o carro: apenas um dedo de cada mão, agora não lembro se era o indicador ou o médio, tocava a direção. Era como se ela quisesse, por algum tempo, colocar todo o restante pra descansar, mas sei muito bem que não era isso. De esguelha eu olhava seus lindos dedos sobre o volante e pensava “Esse é um daqueles detalhes que não vou esquecer muito facilmente” O Elvis continuava destilando todas as suas dores e as ruas pareciam entender muito bem disso. Eu podia ouvir seus lamentos sob os pneus.

Não é só a infelicidade que nos impede muitas vezes de seguir em frente, a felicidade, por incrível que pareça, pode também conseguir isso. Sem falar nos conflitos entre você e o outro dentro de voce mesmo, entende? Eu sei, nem eu, mas a coisa é assim e lembram-se do bebê chorão que falei no começo? É, aquele que não me deixa em paz? Pois é, quando eu tentava, enfim! Esquecer-me em seus braços macios e sob seus cabelos cheirosos - isso sempre me fazia lembrar de um lugar onde um dia realmente  me senti seguro e que sei muito bem, saí contra a minha vontade - esse bebê barulhento sempre dava umas de me despertar. Trazia notícias de longe e me fazia perguntas que até hoje não sei se existem respostas.

Alguém disse um dia que o mundo todo foi dividido pelo medo. Sim, o medo dividiu nosso planeta em hemisférios, continentes, países, cidades, bairros, ruas e sei lá mais o que. Temos medos. Eu com os meus e os outros com os deles e pra que isso dispare num precisa de muita coisa não, quero dizer, num precisa de nada, pois de qualquer jeito ele virá à tona, mesmo que não queiramos. Afinal a confusão precisa continuar. Então, numa bela madrugada – chamo-a de “bela” para tentar atenuar o quão trágica foi - em que todos os meus demônios resolveram correr para o playground, parti com meus pés explodindo tudo. Parti com tanta força que meus passos de ferro derrubaram todas as pontes e caminhos que havíamos construído. Até a convicção pode ser uma charlatona. Em que mais podemos acreditar? Quando alguém me enche o saco sobre a provável existência de Deus, costumo argumentar que até acredito, mas não confio nada Nele. Mas voltemos a convicção, pois é. Saí puxado pelas mãos dessa senhora como os ratos ludibriados pelo som do flautista. E até onde eu poderia chegar?

Numa dessas madrugadas frias e sem rosto em que a lua é extraviada e todos os cães são silenciados. Quando você tem que retirar a armadura porque o corpo não aguenta mais arrastá-la. Quando você tem que depor todas as armas porque não há mais forças para empunhá-las. Quando a dor que se traz sob a pele não é resolvida em farmácias, hospitais, igrejas, bares, lojas de conveniências, postos de gasolina e sei lá mais aonde, eu ia lhe dedicar uma oração enquanto minha alma desertaria  meu corpo e vagaria por desertos longínquos. Numa dessas madrugadas estropiadas eu entregaria os pontos e diria; tudo bem, eu perdi... eu aceito..eu perdi..aqui estou. Não há o que dizer, o que esconder... estou nu e moído até o osso...não preciso fingir pra mim mesmo, pois essa é a pior mentira...não preciso arrancar o rosto para sobrepor um outro...Sim, numa dessas madrugadas em que um segundo pode lhe custar a vida, eu ia tentar reconstruir todas as pontes, todos os caminhos de volta, mas carregando em mim uma dor que ainda achava que podia ser mais do que isso, eu ia enfim! perceber que não era mais possível. Não, não era. Ficaram as canções do Elvis. Escrevi esse conto ouvindo: Are you lonesome tonight? (no repeat)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Eu estou com saudade de você

"Maravilhas no país de Alice"

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ainda algumas lembranças III

Passei meus dois últimos dias em Londres conversando com meu amigo mexicano Juan em um pub que ficava a somente cinco metros do hostel em que eu estava hospedado. Juan era o barman. Falávamos ora em inglês, ora em espanhol. Ele era de DF. Enquanto lavava as tulipas me perguntou: so, did you call her? olhei por cima da minha Guiness e lhe respondi: não, not yet. Antes preciso de mais umas três dessa. Ele soltou um vale! e continuou seu trabalho. Eu estava super excitado, pois acabara de voltar da Irlanda. Caminhara as dezenove ruas de Dublin, embriagado e repetindo sem parar “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”. Minha cabeça flutuando num mar de Guiness. Numa esquina escura uma beldade havia levantado a saia e me mostrado suas colunas do Parthenon: sorri e lhe disse: sorry! I am very tired and drunken as well. Ela se contraiu e depois soltou o sonoro soluço típico dos bêbados. Segui o meu caminho repetindo sem parar: “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”.
Juan me olhou de novo e disse: vou te servir mais uma, depois você vai ligar pra ela. Na volta te sirvo muitas outras, ok? Tudo bem. Falei. Matei a guiness quase num só gole e sob o frio de Londres – Nessa hora lembrei que Balzac havia dito que esse frio não conseguia apagar uma vela, mas que era capaz de matar um homem. - Segui em direção as quase já extintas tradicionais cabines de telefone. As vermelinhas. Entrei. Disquei e depois de alguns segundos ouvi sua voz. Eu falava sem parar. Não deixava ela falar. O que eu estava fazendo? Continuei falando. Ei! Acabei de voltar de Dublin, Deixei James Joyce bem triste com minha partida. Estou em Londres de novo e daqui a dois dias estarei em Paris e mais uma semana chego por ai, então...olha...Eu continuava falando. Ela me interrompeu. Meu amor...ei...ei...meu amor...tô muito feliz que você esteja finalmente voltando. Sinto saudades. Muitas saudades. Parei de falar. Fiquei ouvindo-a. O Telefone tremia em minhas mãos. O que viria após isso? Sim viria alguma coisa mais. Então veio. Ela finalmente disse o que eu não queria ouvir. Eu já sabia, mas não queria ouvir. Só isso. Depois de quase duas horas de conversa, após ela ter desligado, por meia hora fiquei segurando o telefone. Era ainda o que me ligava a ela. Por fim desliguei. I know, I know, there aren’t miracles. Pensei. Londres não estava mais só embaçada pela névoa. Me dirigi ao pub pensando que agora eu só tinha Juan, o meu amigo mexicano. Quando ele me viu colado ao balcão e com os olhos presos em lugar nenhum, me trouxe uma imensa tulipa derramando Guiness por todos os lados e por fim disse: essa é por minha conta.

domingo, 18 de julho de 2010

Quem é esse?

Um desconhecido, ao longe,
caminha como um velho conhecido.
O tempo, sem minha permissão,
me leva para um lugar que já conheço.
Quem é esse, em mim,
que me desobedece?
Que me segura pelas costas me
impedindo de caminhar?
Quem é esse?
Quem é esse que pulula meus cílios de paisagens encardidas?
Que vive me trazendo notícias de um tempo sem sombra,
tardes sem trancas e portas desamparadas?
Quem é esse?
Quem é esse que destruiu todas as estradas e
pontes que me traziam você?
Quem é esse?
Ele fala de pegadas há muito soterradas por 
outras tantas pegadas.
Fala de sonhos descabelados e
manhãs hipotecadas.
Quem é esse que vive tomando decisões por mim,
mas que não tem a mínima coragem de me olhar nos olhos?
Quem é esse?
Quem é esse?
Gostaria muito de olhar pra mim sem
os gritos aflitos dos espelhos.