Espertos

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ainda algumas lembranças III

Passei meus dois últimos dias em Londres conversando com meu amigo mexicano Juan em um pub que ficava a somente cinco metros do hostel em que eu estava hospedado. Juan era o barman. Falávamos ora em inglês, ora em espanhol. Ele era de DF. Enquanto lavava as tulipas me perguntou: so, did you call her? olhei por cima da minha Guiness e lhe respondi: não, not yet. Antes preciso de mais umas três dessa. Ele soltou um vale! e continuou seu trabalho. Eu estava super excitado, pois acabara de voltar da Irlanda. Caminhara as dezenove ruas de Dublin, embriagado e repetindo sem parar “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”. Minha cabeça flutuando num mar de Guiness. Numa esquina escura uma beldade havia levantado a saia e me mostrado suas colunas do Parthenon: sorri e lhe disse: sorry! I am very tired and drunken as well. Ela se contraiu e depois soltou o sonoro soluço típico dos bêbados. Segui o meu caminho repetindo sem parar: “Eu sou Harold Bloom”. “Eu sou Harold Bloom”.
Juan me olhou de novo e disse: vou te servir mais uma, depois você vai ligar pra ela. Na volta te sirvo muitas outras, ok? Tudo bem. Falei. Matei a guiness quase num só gole e sob o frio de Londres – Nessa hora lembrei que Balzac havia dito que esse frio não conseguia apagar uma vela, mas que era capaz de matar um homem. - Segui em direção as quase já extintas tradicionais cabines de telefone. As vermelinhas. Entrei. Disquei e depois de alguns segundos ouvi sua voz. Eu falava sem parar. Não deixava ela falar. O que eu estava fazendo? Continuei falando. Ei! Acabei de voltar de Dublin, Deixei James Joyce bem triste com minha partida. Estou em Londres de novo e daqui a dois dias estarei em Paris e mais uma semana chego por ai, então...olha...Eu continuava falando. Ela me interrompeu. Meu amor...ei...ei...meu amor...tô muito feliz que você esteja finalmente voltando. Sinto saudades. Muitas saudades. Parei de falar. Fiquei ouvindo-a. O Telefone tremia em minhas mãos. O que viria após isso? Sim viria alguma coisa mais. Então veio. Ela finalmente disse o que eu não queria ouvir. Eu já sabia, mas não queria ouvir. Só isso. Depois de quase duas horas de conversa, após ela ter desligado, por meia hora fiquei segurando o telefone. Era ainda o que me ligava a ela. Por fim desliguei. I know, I know, there aren’t miracles. Pensei. Londres não estava mais só embaçada pela névoa. Me dirigi ao pub pensando que agora eu só tinha Juan, o meu amigo mexicano. Quando ele me viu colado ao balcão e com os olhos presos em lugar nenhum, me trouxe uma imensa tulipa derramando Guiness por todos os lados e por fim disse: essa é por minha conta.

2 comentários:

  1. As mulheres são más quando dizem sim e quando dizem não. Se SIM, invadem seus armários e tomam sua liberdade, se Não, todos os espaços ficam vazios e os copos cheios. De qualquer forma haverá um brinde! Se ela fica ou se te deixa livre...

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