Espertos

quarta-feira, 18 de março de 2015

Ela se foi
com sua senilidade no bolso de trás.
logo estará pelas ruas e
dormirá sobre um vidro de janela quebrada e
sentirá o grito dos seus ossos pontudos
e receberá ordens de subalternos e
o presente, o passado e o futuro virão
feito credores insanos
e ela fará perguntas sem respostas
e se esquecerá do filho morto, assim como uma criança
esquece o troco sobre o balcão e
sentirá o coração bater sem pretextos
e sua respiração varrerá o mundo
e perguntará onde poderá se desligar
para se esquecer em seu esquecimento.
e ela pensará que o barulho do mar
é o seu vestido de casamento arrastando-se pelo chão de uma igreja vazia
e o dia queimará suas retinas cinzentas de cansaço
e ela não perguntará onde estão os seus filhos
porque é a sua vez, depois de muito velha, de ser a filha mais nova,
a caçula no meio da maldade madura,
no meio da indiferença de cabelos brancos...
e ela terá medo, muito medo
porque não existe mais solidão
do que toda essa lucidez particular
a lucidez do pássaro voando ao contrário

não existe notícia pior
do que alguém que se foi para bem longe
quando você ainda o tem preso
ao cordão umbilical bem no meio do umbigo do peito.
quando você ainda está sobre o colo,
chorando porque apanhou na escola
Mas que colo? Que escola? Que choro?
Que o quê?
Ela se foi...
e você é um órfão da distância... O tempo, o passado
são só o toque do dedo em riste da sineta do intervalo que durará
toda a vida de morte
Ela se foi. 


(Reynaldo Bessa)