Espertos

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A frágil película do tempo...

Eu daria tudo, tudo o que tenho e o que não tenho só para ver novamente minha mãe aguando suas plantinhas numa manhã cheia de azuis da minha memória de mimeógrafo. Eu acordava em silencio e a mirava de longe. E lá estava ela molhando suas velhas companheiras. Fazia isso como se beijasse cada folha, cada raiz. Molhava-as enquanto num trêmulo falsete cantava as velhas canções de sempre. Com um sorriso matreiro despencando dos lábios eu ficava lá olhando-a. Eu tinha que ficar totalmente imóvel para evitar que qualquer coisa, mínima que fosse, rasgasse essa frágil película do tempo. Quando meus olhos não suportavam mais a leveza de tanta beleza; quando a cena começava a embaçar, da minha caverna, zombeteiro, eu lhe dirigia a palavra. Ela, como se tivesse sido surpreendida fazendo algo de errado, rapidamente me olhava e por trás de seu lindo sorriso cansado eu ainda podia ver a menina sapeca que fora um dia.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ainda algumas lembranças.

Desci do trem. A estaçãozinha de Vicenza me deu um sorriso amarelo. Eu estava muito cansado, com sete quilos a menos e barba de um mês. Joguei minha mochila num banco e enquanto fazia um cigarro olhava as pessoas. Minha amiga Andrea estava em algum lugar. Morava na Itália já há alguns anos. Eu ia tentar encontrá-la. Ela ainda não sabia que eu estava em Vicenza. Terminei o cigarro e joguei minha mochila nas costas. Liguei, deixei um recado e fui para um bar ao lado da estação. Era um dia muito quente. Pedi uma cerveja e ao esticar as pernas e dar o primeiro gole na cerveja bem gelada pude pensar que isso podia também se chamar de paraíso. Logo anoiteceria e eu não tinha certeza se minha amiga Andrea ia aparecer. Eu nem sabia se aquele ainda era o seu telefone, mas eu já havia passado por muitos momentos incertos na Europa e estava acostumado. Não tinha mais medo de nada. Na quinta cerveja ela apareceu com o seu sorriso enorme incendiando tudo. Pensei em beijar sua boca. Ela me deu um abraço demorado. Quase não me soltou. Precisei me conter para não chorar em seu ombro. Estava há muito tempo sem falar português. Há muito não encontrava um brasileiro e a Andrea era uma grande amiga do Brasil. Quando chegamos em casa ela correu pro fogão. Ela morava no primeiro andar. Na varanda preparei outro cigarro. O fumo da Suíça não era tão bom quanto o da França, mas era o que eu tinha. Depois da Itália eu passaria de novo pela França e compraria o meu predileto.A noite começava a engolir a pequena e pacata cidade. O Cheiro de café invadiu a casa e não pude mais conter o choro. Pensei ter ouvido minha mãe me chamar pra tomar o café. A Andrea me trouxe uma xicara fumaçando, passou-a pra mim e depois sorriu. Dei um gole e me enrosquei em seu sorriso.