se foi
numa tarde silenciosa e sem nome
e eu tão longe...
sem saber
que todas as pipas seriam cortadas
que todas as ondas não mais se ergueriam
que todas as tardes seriam confusas
como sorrisos sem dentes
cílios entrecruzando-se num silêncio de morte
e eu fazendo um café, pagando contas, sonhando sonhos
inalcançáveis.
se foi
num arder solitário e sem dono
e eu tão longe
sem saber
que todos os pássaros seriam silenciados
que todos os frutos amargariam
que todas as folhas ficariam suspensas
feito palavras que não foram ditas
olhos semicerrados num meio adeus à vida
e eu sem fé, com ideias tontas, chorando amores
impossíveis.
fiquei...
mais morto do que ele...
(Reynaldo Bessa - poemas de amor e morte)
Espertos
sábado, 6 de abril de 2013
"Eu te amo" é uma frase orégano. Espalha-se. Quando alguém não profere essa frase como uma confissão, como uma despedida no
leito de morte, como um crime cometido, perde todo o sentido. Eu te amo é dita todos os dias como quem põe o lixo pra fora, como o
beijinho de batom e café nos cabelos assanhados da manhã, como uma roupa
que vestimos e perguntamos: e ai, como fiquei? Os "Eu te amo" que não são proferidos, não são ditos, por vezes, significam muito mais do que aqueles que são utilizados em demasia, assim, comprometendo o sabor do prato principal. Ao pensar em dizer "Eu te amo" faça isso como se fosse sua única oportunidade de dizê-lo.
(Reynaldo Bessa)
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Às vezes mergulho na descrença. Que mal há
nisso, afinal, toda moeda só se configura com dois lados. Seria
desinteressante, chato, jogar uma moeda para cima e perguntar: “cara ou
cara?” mergulho na descrença não como uma forma de cortar o fio da
tomada, mas sim, como uma maneira de aumentar ainda mais a tensão, a energia, a
potência. Crer não é aceitar, crer é questionar. E se uma religião te
impede isso; alegando superioridade, ou
mesmo semeando medo por falta de argumentos, não há porque segui-la.
Todas as religiões de um jeito ou de outro, pregam a igualdade, e nem
sempre isso funciona. A maioria das religiões prega a união, a fusão com uma
entidade maior. E a literatura, ou mesmo as teorias de Jung mostram
que a primeira experiência-visão de um homem que se dedica com afinco a
algum tipo de religião é o contato com uma forma "irada" de um Ser, que na
verdade (sei lá porque) esperava-Se dócil, delicado, acolhedor,
simpático.
Mergulho muitas vezes nos meus edredons da
descrença e fico lá. Mas me perdi, como dizia, muitas vezes é a
diferença que une dois seres e não o que os tornam iguais. Em as
aventuras de Pi, isso fica claro. Ele precisa alimentar o tigre para
permanecer vivo. Se tivesse pensado de maneira rasa, precipitada, teria
eliminado o tigre, e por conseguinte não teria sobrevivido. E é assim que fazemos com o que aparentemente nos
incomoda: o eliminamos. E como consequencia deixamos de crescer. Em Pi, são as
diferenças que os mantêm vivos, não o que há de comum aos dois. Mas, Saul Bellow já
havia cantado isso antes. Em “Henderson: o rei da chuva”, o rei Dafu mantem
uma leoa em cativeiro - ela está sempre faminta - E ele a visita todo final de tarde. Só ele e ela. Isso, talvez como uma
forma de manter viva a ideia de que nossos sonhos, num átimo
podem ser devorados, e que por isso mesmo precisam ser realimentados pela
a ameaça constante. Sonhar nunca foi um sofá macio, mas na maioria das
vezes, sim, um barco furado em pleno oceano. E ainda por cima em companhia de alguém que não conhecemos e que não temos a menor afinidade: um
completo estranho. Muito próximo, ao nosso lado. Sonhar, muitas vezes, é como caminhar sobre um campo
minado.
(reynaldo bessa)
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