Espertos

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Às vezes mergulho na descrença. Que mal há nisso, afinal, toda moeda só se configura com dois lados. Seria desinteressante, chato, jogar uma moeda para cima e perguntar: “cara ou cara?” mergulho na descrença não como uma forma de cortar o fio da tomada, mas sim, como uma maneira de aumentar ainda mais a tensão, a energia, a potência. Crer não é aceitar, crer é questionar. E se uma religião te impede isso; alegando superioridade, ou mesmo semeando medo por falta de argumentos, não há porque segui-la. Todas as religiões de um jeito ou de outro, pregam a igualdade, e nem sempre isso funciona. A maioria das religiões prega a união, a fusão com uma entidade maior. E a literatura, ou mesmo as teorias de Jung mostram que a primeira experiência-visão de um homem que se dedica com afinco a algum tipo de religião é o contato com uma forma "irada" de um Ser, que na verdade (sei lá porque) esperava-Se dócil, delicado, acolhedor, simpático.

Mergulho muitas vezes nos meus edredons da descrença e fico lá. Mas me perdi, como dizia, muitas vezes é a diferença que une dois seres e não o que os tornam iguais. Em as aventuras de Pi, isso fica claro. Ele precisa alimentar o tigre para permanecer vivo. Se tivesse pensado de maneira rasa, precipitada, teria eliminado o tigre, e por conseguinte não teria sobrevivido. E é assim que fazemos com o que aparentemente nos incomoda: o eliminamos. E como consequencia deixamos de crescer. Em Pi, são as diferenças que os mantêm vivos, não o que há de comum aos dois. Mas, Saul Bellow já havia cantado isso antes. Em “Henderson: o rei da chuva”, o rei Dafu mantem uma leoa em cativeiro - ela está sempre faminta - E ele a visita todo final de tarde. Só ele e ela. Isso, talvez como uma forma de manter viva a ideia de que nossos sonhos, num átimo podem ser devorados, e que por isso mesmo precisam ser realimentados pela a ameaça constante. Sonhar nunca foi um sofá macio, mas na maioria das vezes, sim, um barco furado em pleno oceano. E ainda por cima em companhia de alguém que não conhecemos e que não temos a menor afinidade: um completo estranho. Muito próximo, ao nosso lado. Sonhar, muitas vezes, é como caminhar sobre um campo minado.

(reynaldo bessa)

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