Às vezes mergulho na descrença. Que mal há
nisso, afinal, toda moeda só se configura com dois lados. Seria
desinteressante, chato, jogar uma moeda para cima e perguntar: “cara ou
cara?” mergulho na descrença não como uma forma de cortar o fio da
tomada, mas sim, como uma maneira de aumentar ainda mais a tensão, a energia, a
potência. Crer não é aceitar, crer é questionar. E se uma religião te
impede isso; alegando superioridade, ou
mesmo semeando medo por falta de argumentos, não há porque segui-la.
Todas as religiões de um jeito ou de outro, pregam a igualdade, e nem
sempre isso funciona. A maioria das religiões prega a união, a fusão com uma
entidade maior. E a literatura, ou mesmo as teorias de Jung mostram
que a primeira experiência-visão de um homem que se dedica com afinco a
algum tipo de religião é o contato com uma forma "irada" de um Ser, que na
verdade (sei lá porque) esperava-Se dócil, delicado, acolhedor,
simpático.
Mergulho muitas vezes nos meus edredons da
descrença e fico lá. Mas me perdi, como dizia, muitas vezes é a
diferença que une dois seres e não o que os tornam iguais. Em as
aventuras de Pi, isso fica claro. Ele precisa alimentar o tigre para
permanecer vivo. Se tivesse pensado de maneira rasa, precipitada, teria
eliminado o tigre, e por conseguinte não teria sobrevivido. E é assim que fazemos com o que aparentemente nos
incomoda: o eliminamos. E como consequencia deixamos de crescer. Em Pi, são as
diferenças que os mantêm vivos, não o que há de comum aos dois. Mas, Saul Bellow já
havia cantado isso antes. Em “Henderson: o rei da chuva”, o rei Dafu mantem
uma leoa em cativeiro - ela está sempre faminta - E ele a visita todo final de tarde. Só ele e ela. Isso, talvez como uma
forma de manter viva a ideia de que nossos sonhos, num átimo
podem ser devorados, e que por isso mesmo precisam ser realimentados pela
a ameaça constante. Sonhar nunca foi um sofá macio, mas na maioria das
vezes, sim, um barco furado em pleno oceano. E ainda por cima em companhia de alguém que não conhecemos e que não temos a menor afinidade: um
completo estranho. Muito próximo, ao nosso lado. Sonhar, muitas vezes, é como caminhar sobre um campo
minado.
(reynaldo bessa)
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