Espertos

domingo, 9 de maio de 2010

Apenas uma noite estranha

Sabia que não devia ligar, sim, claro! que sabia, ainda mais àquela hora, mas era uma noite muito estranha. Até tentei fazer outras coisas, mas só conseguia pensar em ligar. Porque às vezes estamos tão fortes e noutras totalmente em frangalhos? Se eu ligar só vou piorar as coisas, sei, mas quero ligar. Porque eu estava tão infeliz com a felicidade dela? Por quê? Ela estava recomeçando a vida. Agora eu tinha que seguir o meu caminho. Você sabe disso, então porque insiste? Vá dormir. Nada é tão drástico quanto aparenta. Simplesmente deite e durma. Só isso. Deitei-me, fechei os olhos, prendi a respiração, soltei. Deixei o meu corpo encher de ar. Podia sentir meu coração. Podia ver sua cor, seu tamanho, sua ira. Os tiquetaques do despertador eram como alfinetes em meu cérebro. Levantei-me num pulo. Olhei para o telefone. Fui colocar uma dose de uísque, mas não tive paciência, tomei na garrafa. E se ela me visse fazendo isso? Puta, puta, puta, quem disse que você podia deixar de gostar de mim? A única coisa que esse filho da mãe tem que eu não tenho é pouco tempo com você. Eu nasci com você, além do tempo todo que vivemos juntos. Ela disse pra não ligar mais e principalmente fora de hora. O que você quer mais? Vá dormir, vá dormir. Você só vai embaçar ainda mais as coisas. Ela vai te mandar a merda e essa noite pode ficar ainda pior. Sentei-me ereto, tenso como se estivesse diante de um animal prestes a me atacar. Olhos sobre o telefone. O ponteiro das horas duas horas a frente da anterior. Lembrou-se quando terminaram pela primeira vez. Logo depois de alguns dias ela ligou desesperada pedindo que ele voltasse. Voltou no ato. Só estava esperando isso. Porque ela não fazia o mesmo agora? Por quê? Vou ligar, vou ligar. Essa sala escura, esse silêncio pegajoso, não dá mais...num movimento brusco pegou o telefone e discou sem pensar. Isso para que nenhum pensamento pudesse impedi-lo de continuar discando. Ouviu o toque da primeira chamada. Uma dor fina cruzou suas costas. Seu corpo todo enrijeceu. Foi preciso quatro toques e no terceiro ele teve ímpetos de desligar, mas sem saber por que se manteve firme onde estava, então ouviu:

Alô (ela)
Preciso que venha aqui, preciso de você (ele)
Você sabe que isso é impossível. (ela)
Por quê? (ele)
Escuta, te falei pra não ligar mais, olha a hora. Você me acordou. Estou cansada, amanhã levanto cedo. (ela)
Por favor! (ele)
Impossível. (ela)
Sua palavra predileta. Venha, preciso mesmo de você. Tenho algo a dizer. (ele)
Não quero saber. Tenho outra vida, outros desejos, outros sonhos. Sua vida não me diz mais respeito. Você não entende e não tenho mais saco pra explicar. Quero só dormir. (ela)
(ele ouviu um “quem é?” um pouco mais baixo que a voz dela)
Vá se foder. (ele disse com a voz mais alta que a voz dela para a voz mais baixa que a dela)
(ela ficou em silencio. Pareceu não saber o que fazer)
(ouviu a mesma voz do "quem é?"dizer “você ainda não resolveu isso, amor?")
(Ele trincou os dentes e apertou o telefone)
Já, meu amor, ele é que é surdo. (ela para o outro)
Olha! vá dormir. Você está acordando todo mundo. (ela)
Não consigo. Até tentei, mas já vi que não dá. (ele)
Olha, não vou mais à sua casa. Acabou faz tempo. Você tem que seguir com sua vida (ela)
Essa é a minha vida. Estou seguindo com ela (ele)
Não, você está desperdiçando-a (ela)
Cada um desperdiça a sua maneira. (ele)
Chega. Tchau. Não aguento mais isso...
(enquanto ela falava ele quis desligar, mas...)
Espera (ele)
O que foi agora? (ela)
(Silêncio)
Eu te amo (ele)
Ah! Chega, chega e chega, tchau mesmo (ela bateu o telefone)

Ele até pensou em ligar de novo, mas não teve forças. Estava realmente cansado. Olhou a sua volta. Nenhum ruído, nada. Todo o silencio do mundo pareceu ter invadido sua casa. Lembrou do sorriso dela. Ninguém sorria como ela. Foi a primeira coisa que lhe chamou atenção nela. Estava muito cansado. Queria chorar, mas de que isso adiantaria? Mesmo assim chorou. O cansaço o venceu: adormeceu. Sonhou que todo o ar do seu corpo era sugado por alguém, um desconhecido. Ele não podia impedir. Seu ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Quando atingiu o limite, soltou um grito como se agora quisesse mesmo acordar o mundo. Despertou abruptamente. Não estava mais na sala. Estava na cama. Ela estava ao seu lado e ele pôde ouvi-la dizer “Volte a dormir, meu amor, foi só um pesadelo. Ainda respirando com dificuldade, ele olhou em volta e percebeu que estava em sua casa de sempre. A casa da qual nunca saíra. Deitou-se. Ela se enroscou nele como de costume e ele a abraçou como nunca fizera.

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