Espertos

domingo, 9 de maio de 2010

Minha humanidade.

Celulares e Ipods: Duas formas sofisticadas de se fugir das pessoas. Ainda lembro-me quando levávamos um fora da namorada ou estávamos conhecendo uma outra, ou brigávamos com nossos pais (geralmente sem motivos) ou perdíamos um emprego (que geralmente não valia nada) ou simplesmente sentíamos a vontade de conversar (mesmo sem nenhum assunto) ligávamos para aquele grande amigo(a) e entre uma breja e outra conversávamos até achar que o assunto se esgotara. Isso já faz um tempo. Não lembro da última. Agora só temos tempo para resolver essas coisinhas pelo celular, quando não, por emails, msns, facebooks, orkuts e outros tantos meios que aparecem de tempos em tempos. Pessoalmente nem pensar.

Hoje dificilmente vemos uma pessoa sem um telefone celular. Raramente alguém não está usando-o. Quando não está nos ouvidos, está entre dedos ansiosos: Velhos, adultos; adolescentes; crianças. Talvez num futuro próximo até os animais. Imagine uma vaca passando ao seu lado e mugindo nervosamente ao celular.

Porque de repente tanta gente passou a ter tanto o que dizer? O que detonou isso?As pessoas tem telefone celular porque precisam falar ou precisam falar porque tem telefone celular? Sei lá. Sempre vejo muita gente falando horas ao telefone e ao desligar, colocando o fone do seu Ipod nos ouvidos. Não conseguimos mais viver o mundo externo? Nos cansamos do outro ou não conseguimos mais encará-lo? A boca não consegue ser tão sincera quanto os olhos? Talvez não seja a toa quando dizem que o olhar é a avenida da alma.

Nas ruas, muitas vezes respondo perguntas que não me foram dirigidas e quando olho em volta, percebo  que é alguém ao celular só que usando seus respectivos fones. Parecem lunáticos falando sozinhos. Isso me remete aos loucos que encontrávamos pelas ruas em febris solilóquios quando escapavam do asilo que ficava perto da minha casa quando eu era criança Pelo jeito não eram tão loucos assim. Estavam só cantando o futuro?

Todos nós temos os nossos dias. Ninguém é de ferro. Muitas vezes quero ficar em casa num dia só pra mim. Não quero falar com ninguém, ver ninguém, mas na maioria das vezes adoro sair pras ruas só pra ver as pessoas. Vê-las falando, andando, comprando, vendendo, sorrindo, chorando, brigando. Cada um vivendo como pode e sabe. Muitas vezes faço isso, não só porque curto muito e porque gosto das pessoas – apesar de também ter os meus dias de assombros – mas porque sei que essa é a minha humanidade e eu tenho obrigação de fazer parte dela. Não posso afirmar que existirá outra, pode ser, mas talvez não seja minha.

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