Espertos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Outubro

Estamos no dia 12 de outubro de 2100. Um pai larga o trabalho mais cedo, pega o seu econômico carro do ano, que faz dois anos-luz sem muita concentração e vai buscar seu filho na escola, que fica bem ali em Marte. Dizem que os professores de lá não são muito bons, pois são marcianos, por isso, os pais estão pensando seriamente em contratar professores de outras galáxias, onde o ensino é bem mais desenvolvido.

Hoje é um dia muito especial para Carlos Delta da Silva Gama. É dia das crianças e seu pai lhe prometeu comprar um belo presente. Ele não sabia ao certo ainda o que pedir, mas na hora, com certeza, escolheria bem.

Seu pai, como na hora prometida, já se encontrava à saída da escola. O filho já vinha ao seu encontro, só que acompanhado por um dos professores, que parecia mais verde do que o normal. Vinha também com as antenas decaídas. Era visível o sinal de aborrecimento. Por telepatia, dissera ao pai que seu filho tirara nota baixa na arguição, pois não soube responder quem foi que descobriu Marte e quem proclamou a independência de Júpiter. Todos os meninos do universo sabiam isso de cor. O menino tentou consertar a situação alegando que merecia uma chance por ser da Terra. O pai também transpareceu um sinal de aborrecimento, mas conversaria isso com o filho depois. Não iria estragar esse dia tão importante pro Gaminha.

Num piscar de olhos, fizeram o rotineiro itinerário, Marte-Terra, e logo se viram no grande e luminoso centro, entrando de loja em loja, atrás do bendito e tão esperado brinquedo. Entraram num agrande shopping de computadores. Todos os tipos. Um que previa o futuro, outro que contava as estrelas e dava seus nomes e respectivos endereços. Era infalível e inimigo dos professores. Mas Carlos Gama fez uma cara de desanimo e molemente disse:

-Não pai, não é isso que quero.

Entraram em outra loja. Essa vendia robôs. Tinha um que era feito um serviçal: trazia a bola, os chinelos, fazia dever de casa. Outro que contava lendas de um povo, acho que do século... Vinte e um, aproximadamente no ano de 2012. Mas o menino, bastante desanimado e impaciente com a voz metálica do vendedor, disse:

-Não. Ainda não é isso que quero.

E o pai, já dando sinal de inquietação, seguiu para outra loja. Entraram agora numa agência de turismo interestelar e o bondoso pai lhe ofereceu uma temporada na Lua, hospedado em um hotel cinco galáxias, anti-meteorito e tudo, à beira mar, com garotas luanas bronzeadas e douradas também...Mas o menino mais uma vez disse:

-Não. – Argumentando que já faz três anos que passa as férias na Lua e já tava de saco cheio.

Então o pai ofereceu pra Netuno, ia visitar os tios, rever os primos. Mas Gaminha logo disse:

- Não, pois disseram que lá é muito chato e frio principalmente.

O pai, agora bastante desanimado e aborrecido, prometeu ir à última loja. Já estava anoitecendo e sua mãe ia ficar preocupada. Escolhesse um brinquedo, caso contrário, ficaria sem. Entraram numa loja, mas logo saíram. O menino não conseguiu escolher nada. Quando iam embora, os dois já bastante cansados e tristes, o menino avistou algo na vitrine de uma loja, deu um pulo e disse:

-Pronto pai, é aquilo que eu quero.
- Mas isso aí filhinho?- pergunta o pai espantado.
- Sim pai, isso aí mesmo – insiste o menino eufórico.
- Mas eu nem sei o que é isso, filho.
- Mas é bonito, pai. Eu quero, vai.
- É muito caro. – Disse o pai ainda indeciso.
- Vai logo pai, vai!- continuou Gaminha.

O pai pagou muito, mas ficou satisfeito. Sentiu-se pai duas vezes. O menino abraçou-se possessivo ao brinquedo, sorriu e abraçou o pai. O pai sorriu. Foram. Era m MACACO EMBALSAMADO.

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