Espertos

domingo, 27 de junho de 2010

Os Domingos e o Carro de Apolo.

Um domingo de sol sempre foi uma festa para mim. Esteja onde estiver, esse azul dia da semana com o astro rei brilhando bem no meio do peito, sempre me levará para uma fase da vida em que eu não dava a menor trela para o futuro.

Enquanto eu lavava a Kombi - Esse monstro branco que eu odiava mais do que as minhas espinhas - podia perceber muitas coisas a minha volta. Coisinhas que me perseguem até hoje e que provavelmente me perseguirão pelo resto de minha vida. Havia muito mais movimentos, sons e cores pelas ruas: As mulheres, enquanto colocavam seus colchões, cortinas, lençóis, cobertores, travesseiros, roupas e tudo mais para serem lambidos pela língua do Carro de Apolo, entoavam canções, que hoje sou capaz de cantá-las de trás pra frente.

Quatro casas além da nossa, eu podia ouvir Can’t help fallin in love na voz do Elvis. Na casa da frente soava o novo sucesso do Roberto Carlos. Do quintal chegava a voz do Aguinaldo Timóteo, o Wanderley Cardoso, Jerri Adriane ou um desses muito conhecidos da época. De dentro da nossa casa, da portátil radiola vermelha do meu irmão mais velho, Os Beatles bradavam suas eletrizantes canções.

Algumas vizinhas - Ainda não sei como conseguiam isso – de dentro de suas casas, enquanto faziam suas tarefas domésticas, aos berros, travavam herméticos diálogos. Quando chegavam até a janela pra bater um tapete ou jogar algo fora, diziam: "mulher você viu como o Cuoco tava lindo na sexta-feira?" A outra rebatia: "Eu vi, ai meu deus! esse homem me mata." A primeira retrucava: "Amiga, deixa o teu marido ouvir isso." E as duas encerravam temporariamente o diálogo em uma uníssona e sonora gargalhada.

Os rapazes desfilavam seus carros e suas motocicletas, e vez ou outra disparavam ensurdecedores barulhos dos escapamentos, na intenção de captar os olhares das garotas que saltitavam felizes feito gazelas em bandos. Enquanto isso, eu podia ouvir sons de pratos, panelas, travessas, gafos, facas, colheres, vindos da cozinha. Podia ver minha mãe zanzando por ela feito uma bola de pinball. Do forno do nosso velho fogão exalava um cheiro bom de frango assado que me dava uma tremenda vontade de pular uma fase da minha condenação, mas sabia que o olhar de lupa do meu pai acabaria percebendo e mesmo que na mais remota possibilidade, isso não fosse possível, me sobrava ainda o receio de que a própria Kombi me delatasse pra ele. Eram tão amigos e eu sabia que ela não gostava nem um pouquinho de mim, devido aos diversos palavrões que eu gritava em seus ouvidos.

Meu pai entrava e saía de casa. Após provar uma cachaça trazida de alguma cidade distante e tirar o gosto com o delicioso caldo de feijão de minha mãe, vinha conferir em que pé estava o meu trabalho em cima do seu brinquedinho de quatro rodas recém adquirido. Ficava lá parado: bermudas, sandália de rabicho, cabelo sagradamente penteado, braços cruzados sobre a barriga e os olhos como duas sentinelas sobre mim. O prazer boiando neles: primeiro pela absoluta certeza do controle sobre mim, depois por ver seu Animalzinho de estimação cada vez mais e mais limpinho, e por fim, pelo álcool da cachaça já dando o ar de sua graça. Enquanto olhava-o com o rabo de olho, tentava parecer ainda mais aplicado, mais enérgico, mais competente, mas na verdade o que gostaria mesmo era de estar bem longe dali. Depois de lavar toda aquela Cordilheira dos Andes, eu teria ainda que lustrá-la. Essa era a pior parte e enquanto eu a lavava, já pensava nisso. Nessa fase, meu pai sempre encontrava um espaço pelo qual eu havia esquecido de me debruçar. Mas como lustrar a Muralha da China e não esquecer um espaçozinho se quer?  Ainda lembro-me da mangueira como uma enorme serpente colorida. Lembro-me da água: Seu cheiro forte, sua temperatura, seu brilho, seu som, como se agora mesmo estivesse escorrendo pelas minhas mãos, assim como nesse instante escorrem minhas lembranças.

Domingos queriam dizer: Macarrão. Sim, muito macarrão com muito molho vermelho, mas tinham ainda os refrigerantes borbulhantes, que de tanta ansiedade de vê-los em meu copo, os punha com tanta pressa que bolhas estouravam em meu rosto. E a sobremesa? Somente aos domingos tínhamos sobremesa. Mas, eu só teria acesso a tudo isso, quando minha surrada flanela terminasse de deixar sagradamente brilhando o último e mais recôndito espaço da Kombi. Uma determinada hora minha mãe gritaria: “O almoço tá na mesa” e meu pai, com um etílico e sarcástico sorrisinho no canto dos lábios, soltaria essa: “Pois tire da mesa e ponha nos pratos” E depois viria vistoriar a finalização da minha tarefa. Ele agachado, buscando vestígios de uma displicência ou astúcia, eu em pé, olhando-o e contorcendo a flanela mais e mais entre os dedos. Depois de um eterno silêncio, se ele dissesse: “Aprovado” eu correria dali como se tivesse um bilhão de pernas.

Muitos anos depois, longe, muito longe dessas manhãs de domingo, depois de ter sido obrigado a ver meu velho desaparecendo num pequeno espaço que parecia menor do que ele, pois tivera o mau gosto de morrer, eu atravessava uma rua, quando vi uma Kombi igualzinha a dele. O presente desapareceu da minha frente como uma página de um livro que fora virada. Lentamente fui me aproximando como se estivesse caminhando em direção a um pássaro arisco e que o meu menor deslize pudesse causar a sua fuga. Pude sentir meu coração na ponta dos pés. Ao tocar o desengonçado veículo pensei ter divisado um leve sorriso em seus olhos. Alisei-o. Era como acariciar o tempo ou a cabeleira oleosa do meu pai. Fazia muito isso enquanto ele dormia: deslizava meus dedos por aquela cabeleira que parecia nunca despentear-se. Quem diria, hein? Depois de muitos anos, eu diante de uma Kombi. Até cheguei a pensar que esse veículo não mais existisse. Não me parecia tão grande. Eu caberia nele? Onde estava a sua enormidade? E o meu ódio, onde estava também? Olhei cada canto: sob os pneus, os paralamas, olhei em seu interior e minuciosamente mirei os assentos. Era um tempo muito particular. Meus olhos marejaram e eu já sabia que não ia conseguir segurar o peso daquelas lembranças todas. Olhei ao redor. Queria ouvir o Elvis cantando em algum lugar. Onde estavam as mulheres entoando suas canções com o coração transbordando de amor e futuro? Cadê o cheiro bom vindo da cozinha? Não havia mais nada. Vi pessoas passando apressadas. Um carro buzinou, uma moto disparou um ensurdecedor barulho, mas me pareceu tudo tão gratuito. Havia meninas em bandos pelas ruas, mas elas me pareceram tão tristes. Um menino soltou um palavrão e um outro rebateu com um ainda mais virulento. Eu mirei novamente minha companheira de infinitos domingos, colei meu rosto nela e fiquei ali... demoradamente. Se alguém viu tudo isso, deve ter achado muito estranho. Abracei o veículo como se abraçasse o meu pai. Dei um leve beijo na intenção de seguir o meu caminho, mas não consegui. Não conseguia me despedir. Teria lavado e lustrado toda ela se o dono tivesse me permitido. Queria fazer isso, mas não tinha coragem de pedir. Não pediria, claro! Sabendo da impossibilidade, sentei-me na calçada sem tirar os olhos de cima dela. Seu dono apareceu, entrou rapidamente e acionou a chave. Ao ouvir o som do motor não pude mais me conter. Chorei. Dentro de um olhar triste e embaçado vi a Kombi, em suas pernas bambas, desaparecer da minha frente. Era como se levasse todos os meus domingos com ela. Fiquei mais um pouco lá. Não queria me mexer pra não correr o risco de estilhaçar o passado. Após um tempo, ainda contra a minha vontade, retomei o meu caminho e o presente com seu hálito gélido começou a sussurrar em minha nuca.

Um comentário:

  1. Bessa, seus textos sempre tão sensíveis nos fazem voltar ao nosso passado. Há uma sutileza, mas é ao mesmo tempo tão voraz. Nos consome e nos leva ao túnel do nosso tempo. Nos faz querer resgatar as nossas memórias, que dá vontade até de colocar no papel. Você tem esse dom. Tirar de nós o que está tão escondido, claro que não com a mesma clareza que a sua e a beleza com que se exprime. Mas nos transporta ao mundo que deixamos para trás. Parabéns, você é muito especial viu?

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