Como dizia Bukowski: bom tempo é como boas mulheres, não acontece sempre e quando acontece, não dura pra sempre. Digo o mesmo para os livros, mas com uma pequena diferença: o tempo passa, as boas mulheres te deixam, mas os bons livros ficam com você, ali na estante, ao alcance da mão. Os bons livros são mais fiéis do que os cães. Tanto faz (Não tenho certeza, mas creio que seja o primeiro livro do Reinaldo) é bacana porque é divertido, hedonista, cheio de vida. Gosto dos hedonistas, se é pra doer, vamos nos divertir, certo? Tanto Faz é uma homenagem ao prazer, ao amor e a amizade. Morri de alegria e inveja da amizade do Rica com o Chico. E por falar nisso, onde estão os amigos, as amizades de verdade, dessas em que até as nossas amigas mijam na nossa frente quando voltamos de uma farra, arrotando cerveja e salame? Mas voltando, Tanto faz é bacana-sacana porque é um jorro de alegria. Não há forçação de barra, a coisa flui naturalmente como deve ser. Até os estrangeirismos se encaixam perfeitamente. A escrita é aparentemente simples, despojada, mas cuidado, ela engana. Num capítulo eu rachava o bico devido a alguma cagástrofe do Rica, no outro, franzia a testa e fechava a cara porque não tinha respostas para os questionamentos filosóficos do personagem embriagado de vida e Demi perdido em uma das Gare. Quando li tanto faz, peguei a mochila e me mandei pra Europa, Paris, como não poderia deixar de ser. No final de tarde parisiense, toda vez que me aboletava numa mesa e pedia um Demi, sempre brindava com um Rica e com um Chico imaginários. Tanto faz é bacana, ponto. Porque é um desses livros que tem a manha de mudar a sua vida, mesmo que você não queira... tanto faz...
1933 foi um ano ruim - John Fante
John Fante escreve como quem se confidencia a um amigo. Você acaba comprando a briga dele, ficando do seu lado. 1933...foi um ano ruim, como o próprio título já entrega, é um livro triste. Um livro que fala de sonhos e amores impossíveis, muito frio, tempos de desemprego, saudade, pobreza, mas tudo isso embrulhado no papelzinho do lirismo e com um lacinho de sarcasmo. O sarcasmo de um adolescente inconformado com a vida que leva. Arturo Bandini com seus olhos de raios-x, disseca Svevo Bandini, seu pai, com tanta minúcia e audácia, com tanto ódio e amor, que até dá vontade de lhe ceder o nosso emprego, nosso salário. Comprar-lhe uma casa. Gosto das passagens em que Fante se refere “os olhos do fogão de minha mãe. Ele só obedecia a ela” ou “ O piso da varanda estalava quando o pai pisava...ela sabia que era ele”
Fante é mais um desses escritores que não se protegem em palavras bonitas, vai direto ao ponto: o Coração. Fante tem o poder de se apossar do leitor. Num dado momento, chegamos a pensar que somos Arturo Bandini, ou seu amigo mais próximo. 1933... Arrebata... toca
1933 foi um ano ruim é bacana porque Fante consegue nos alegrar com a sua tristeza e principalmente com a sua inconformação eletrizante.
Complexo de Portnoy - Philip Roth
Chorei e ri demais. Ou será que ri e chorei demais? Sei lá... só sei que foi catarse total. Só quem não foi criança ou adolescente é que não vai se identificar com o personagem, o Alex Portnoy. O Livro é divertido, é engraçado e como dizia Borges: O livro tem que divertir, se não, o jogue fora, pois é. Resisti anos e anos a fio em comprar o Complexo de Portnoy porque, sinceramente achei que era mais um desses livros paranóicos que tentam tirar você da sua paranóia. Enganei-me. Sorri molhado, chorei sorrindo. Uma frase te leva pra baixo, a outra já te traz pra cima com as lágrimas em gargalhadas. Resisti muito tempo também a Philip Roth, nada mais de livros sobre o holocausto. Nada a ver. Outra coisa. Narrativa simples e direta, mas rica e densa. Alex é um personagem que desengonçadamente tenta abrir as portas do coração dos pais medrosos e protetores ao extremo, como não consegue, fecha a porta do banheiro e se acaba na bronha. O Pinto é seu passaporte para a liberdade. Uma verdadeira e hilária epopéia masturbatória. Quem não conseguir rir com a passagem do problema que Alex Portnoy tem com um de seus testículos, deve calar seu riso para sempre: “Quando eu tinha nove anos, um dos meus testículos se cansou de viver dentro do escroto e resolveu migrar pro Norte... deixando seu temerário companheiro sozinho no meio de chuteiras, cercas de madeira, pedras, paus e canivetes, todos aqueles perigos que enlouqueciam minha mãe...”
O complexo de Portnoy não é só bacana, é do caralho, porque Roth pegou todo o seu passado e com muita coragem transfigurou-o.
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