Sim, é um belo vestido de noiva: branco, branquinho. Exatamente como queria seu pai. Ele costumava dizer... tem que ser branco, brrrrrranco mesmo. Porque nem todo mar é verde e nem todo céu é azul, assim como nem todo branco é branco. Sim, é mesmo um belo e branco vestido de noiva. Sorriu. O grande espelho a olhava obediente. Arregalava ao máximo seus olhos para que ela coubesse toda nele. Ela, ali, sorria, se remexia dentro do belo vestido... Branco... branquinho, como queria seu pai...exatamente como ele queria.
Colocou as mãos na cintura, depois flexionou levemente uma das pernas. Voltou a ficar ereta. Levou a anca direita um pouco para frente, fez o mesmo com a anca esquerda, mas antes disso trouxe a anca direita para trás, claro! As mulheres sempre conseguem o que querem, mas isso, não. Isso elas “ainda” não conseguem. Mirando-se de esguelha, deu aquela máxima viradinha de bunda - que é quando a mulher fica quase na forma de um DNA - pra tentar vê-la completamente. Olhou, olhou. Desmanchou o DNA. De frente de novo. Só ela e o espelho. Deu quatro passos para trás. Perguntou-se se quatro era um número de sorte. Pensou em dar mais quatro: símbolo do infinito, deitado, claro! Mas primeiro precisava imaginar o oito em pé pra só depois poder deitá-lo. Não conseguia imaginá-lo já deitado, tumbado, acostado. Não havia tanto espaço ali, por isso ficou nos quatro mesmo. Olhou-se de longe. Mãos na cintura. Depois, seguindo o ritmo de uma marcha nupcial que só tocava em sua cabeça, começou a aproximar-se do paciente espelho. Tantantantan, Tantantantan...Olhos marejando....tantantantan...Olhos marejados...Tantantantan, Tantantantan. Ficou tão próxima do espelho que seu hálito o embaçou. Simmmmmm, eu o aceito... Pensou ter dito isso e depois beijou o espelho. Alguém conseguiria ser tão frio quanto um espelho? Perguntou-se, mas não deu trela alguma pra resposta.
Afastou-se. Mãos na cintura ainda. Tentou sorrir: a primeira, a segunda. Havia um sorriso ali, mas este era como alguém que acabara de despertar e não queria se mostrar totalmente.
Que belo vestido de noiva, hein? Papai ficará branco de tão branco que é o vestido. Ficará satisfeito. De tanto olhar para si mesma, por um momento, breve, brevíssimo, chegou a pensar que não era ela, ali, diante daquele espelho repleto de corpos refletidos em sua memória de espelho: mulheres - algumas muito jovens, outras nem tanto - que diariamente se postavam ali, cara a cara com ele, sem nem lhe perguntar como tinha sido o seu dia ou como estava o seu humor de espelho.
A gente pensa cada coisa. Suspirou. Deixou os braços caírem na cintura. Se não fossem os ombros, teriam caídos ao chão. Casamento, casamento: esse já era um daqueles sonhos em que ela teve que, contra a vontade, jogá-lo fora, feito aquele filho que a gente ama muito, mas é obrigada a entregá-lo para morrer no front. Casamento agora estava fora de questão. Foi-se o tempo. Não é que o tempo não para, mas é que ele nunca espera. O tempo tem um tempo próprio e num tá nem aí pro nosso tempo. Sim, os homens vieram e muitos, mas se foram, e todos. Homens têm receio de “pegar” compromisso. Casamento, casamento: seu pai não esperava mais isso dela. De tanto esperar ele nem percebeu que já não mais esperava. Isso agora era como uma foto que de tanto desbotar se transformara em algo tão confuso que ninguém fazia mais a menor questão de mirá-la.
De onde surgiram todas essas rugas? O que aconteceu com seus belos lábios? E sua bunda empinada, em que havia se transformado? Para onde tinha ido? Fechou a cara, depois jogou os dois braços as costas como se quisesse puxar os cabelos que caíam um pouco depois da nuca. Foi descendo o zíper: uma muralha da china em suas costas. Da nuca ao cóccix. Desvencilhou-se do vestido como se saísse de uma cápsula do tempo. Bom ou ruim, já não mais sabia. Apenas um tempo.
Colocou o vestido no manequim da vitrine e ele pareceu mais animado, ali com todos os outros vestidos. Ela o mirou mais uma vez, quem sabe a última. No dia seguinte, talvez, uma cliente o levasse. As mulheres já são complexas demais, quando o assunto é casamento, então... Bom, era sem dúvida um belo vestido de noiva, essa ou mesmo uma outra cliente acabaria levando-o. Com certeza ficará pouco tempo na vitrine e seu pai ficará bastante satisfeito. Suspirou... sorriu...foi até a cozinha e tomou um café frio. Já à porta, desligou todas as luzes e por alguns segundos contemplou todos aqueles vestidos brancos. Agora nem tão brancos, nem tão branquinhos assim, mas mesmo no escuro ela sabia que eram belos vestidos de noiva. Sonhos ou desilusões na cor branca. Pensou. Deu de ombros. Com um hermético molho de chaves e uma prática adquirida em todos esses longos anos, trancou a porta. Desejou que todas suas lembranças tivessem ficado lá dentro também, todas elas, no silencioso escuro da loja, como todos aqueles vestidos.
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