Espertos

sábado, 16 de abril de 2011

A solidão é um bicho macio

A solidão é um bicho macio. Pude sentir sua pele sobre a minha quando o ônibus que me trazia de Madrid entrou em Barcelona. Era noite e a primeira coisa que vi foi uma pracinha com suas luzes. Parecia uma pracinha qualquer, como uma dessas do interior. Um desses lugares em que crianças brincam sob melancólicas lâmpadas e que por diversas vezes tentei fugir de mim mesmo. 

Eu acabara de despertar e o ônibus me pareceu seguir sentido contrário ao meu do sono que aos poucos ia se desprendendo de mim como uma pele morta. Olhando a cena deslizando lá fora, senti tudo como um turbilhão. Uma coisa tão forte que olhei em volta com receio de que as pessoas estivessem ouvindo o barulho dentro de mim: uma saudade grande de casa. Uma dessas saudades que só se sente em sonho. Pude sentir o cheiro da minha velha; cheiro do pó sobre sua pele flácida que por diversas vezes colou em meus lábios. Lembrei-me de seu sorriso tímido feito um cachorrinho sob a mesa.  Senti o cheiro do seu café (esse cheiro me acompanhou por toda a Europa) e vi sua bíblia surrada.       

Passei uma mão sobre a outra porque tive a sensação de que o creme que meu pai usava em sua bela cabeleira, agora estava ali, sobre elas, como se eu estivesse acabado de passá-las por entre os fios de seus cabelos sagradamente penteados.  Ouvi a velha cantiga de redes balançando.  Encolhi-me e dei um abraço em mim mesmo. Depois embacei tudo, tudo o que via. Dentro e fora de mim.

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