Espertos

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

No coração do escuro.


Ele amarra os cadarços dos sapatos como quem se algema, aperta a gravata feito quem se enforca e abotoa a camisa como quem fecha seu ataúde. Não fala nada por temer que isso estrague o dia. Chega à cozinha e prepara um café. Sem forças, toma-o já pensando em mijá-lo. Ao terminar, sente-se aliviado, mas logo se aborrece ao saber que terá que preparar outro no dia seguinte. Pega o paletó com uma mão e a pasta com a outra. Imagina-se um garçom. Lentamente caminha olhando as pontas dos pés para não encarar o vizinho. Não consegue fugir, então, sorri como se lhe cuspisse na cara.
Não percebeu e já está em seu carro a caminho do trabalho e por um instante sente que se soltar as mãos é possível que o veículo lhe obedeça. Não faz isso. Morrer dá muito trabalho. Ficou preguiçoso. Trabalha por hábito, talvez para esquecer que trabalha.
Desce do carro. Não fala com ninguém. Sussurra, geme, gesticula, peida barulhento. Esquece-se totalmente de si. As pessoas o olham espantadas. Ele se desculpa, mas logo em seguida peida novamente. Está emagrecendo, mas se sente mesmo sumindo. Põe sua pasta na mesa e cai na cadeira feito quem senta numa bexiga na tentativa de estourá-la. Suspira, pondo para fora parte do que sente, mas torna logo a engolir tudo novamente num bocejo. Olha a janela e acha que vê um lindo dia. Porém, dentro dele chove e a água leva um pouco do que é, a cada chuva. E para que um dia lindo se não se pode vê-lo nem usá-lo? Era como se esse dia fosse um Deus.
Começa a trabalhar: telefonemas, riscos, cálculos, números, frases táticas, vozes...Tudo como planetas girando em torno de um sol sem luz, de um astro indiferente, vacilante. Ele trabalha como quem enterra o filho. A seiva se foi, saiu por algum de seus buracos, sem ele ver. Não quer mais vencer, sabe-se vencido. É como se cedesse aos adversários antes mesmo de testá-los.
O tempo passou e levou metade dele. Aos poucos, assim, como caem os cabelos. Restou um céu cinza e um chão de gelo, um labirinto sem minotauro, guerras sem armas, beijos sem salivas, sorrisos sem dentes e livros que só começam quando terminam.
Ele tem um nome, mas qualquer um que citasse aqui seria indiferente. Sua vida pulsa como um paralelepípedo e, ele digita no seu computador como quem sobe uma longa escada. Vai sumindo a cada aparição.
Separou-se da mulher. Os filhos, que ele não lembra mais quantos são, estão com a mãe da ex-mulher e ele só liga pra eles quando não está se sentindo sozinho. Por isso, até esqueceu o número do telefone. Quando este toca, descontrai-se ao perceber que foi engano. Vai-se desligando, desprendendo-se da vida feito pele morta.
Ele não lê mais o horóscopo. Milhões de pessoas possuem também o seu signo. Com certeza seria o último da fila. Quando chegasse a sua vez já seria outro dia. Como um cachorro correndo atrás do rabo. Não compra mais o jornal. Não quer dizer para o jornaleiro – “Me dê um jornal” – nem muito menos abrir a porta e encontrar um exemplar como um prato de comida estampado no outdoor que ele sabe que não vai comê-lo.
Faz sexo para se esvaziar de coisas que acumulou em sonhos desbotados. Deita sobre a mulher como quem abre um guarda chuva, depois paga e sai, deixando a mercadoria dentro dela.
Caminha esbarrando nas pessoas. Estas não lhe dão atenção, não o percede. Mas, para ele, as pessoas são tão importantes quanto um botão de camisa. O mundo vai perdendo a graça como um palhaço canceroso.
Caminhando sob o sol, observava seus pensamentos. Só via o que não se mexia. Mas não deixou de notar as sombras das pessoas. Pensou se estas resolvessem desobedecê-las, fugir, cobrar o papel que desempenhavam. As sombras ficavam magras, gordas, altas, baixas e possuíam uma única cor. Não se preocupavam com o mundo, não comiam, não escovavam os dentes nem tomavam banho. Não faziam uma porção de coisas. Curioso, num lapso de fuga da sua existência letárgica, procurou observar sua sombra. Pôs a mão sob o Sol e não a percebeu, não a viu. Procurou uma posição mais exata e nada. Ele havia perdido sua sombra? Era um homem sem sombra? agora mais sozinho ainda?
Parou o automóvel defronte ao muro, ligou os faróis, ficou entre os dois: no muro, só o muro e os faróis e, nos faróis, só o muro. Um no outro, sem ele, que ficou olhando para um e para o outro, rapidamente, como se estivesse numa partida de tênis. Não acreditava. Não havia sombra. Entrou no bar. Olhou algumas sombras bêbadas. Fitou um homem sentado ao balcão que fazia uma enorme sombra no teto. Quando este saiu, ele correu lá e logo ocupou o lugar do homem e olhou rapidamente para cima. Mas não viu nada além do teto e o teto não viu nada além dele no canto do homem, que antes lhe projetava uma sombra. Sentiu um vazio lhe preencher o oco do peito. Agora queria conversar, mas de tanto ficar calado, não sabia mais, nem muito menos tinha coragem.
“As pessoas possuíam olhos de confessionário”. Tentou, bateu os lábios desistiu. Começou a se movimentar rapidamente e a ficar em diversas posições como se procurasse sua sombra. Um homem finalmente o fitou, mas fez isso como quem olha uma janela que bate com o vento. Continuou não vendo sua sombra. Começou a ficar desesperado e a querer que as pessoas o vissem. Queria o mundo de volta? As pessoas não davam a mínima. Jogavam cigarros em sua direção, cuspiam em sua cara, sentavam em cima dele, derramavam cerveja em suas pernas e até deixavam que suas mulheres sentassem em seu colo. Diante dessa situação, não pensava mais no emprego, no salário, nos filhos, na ex-mulher, na casa, no carro, nos amigos. Nada mais fazia diferença, apenas queria entender por que só ele não possuía sombra. Sentia-se desintegrando. O mundo ia ficando turvo, sufocante, como se ele estivesse com um capacete de vidro, como se fosse um astronauta agonizante. Chegou a casa e caiu na cama feito um tijolo, refugiou-se no sono.
Acordou com o pensamento que talvez sua sombra lhe pregara um susto. Ou, por um dia, resolvera lhe desobedecer e logo estaria de volta. Arrependida, talvez até já estivesse com ele.
Contemplou-se no espelho e quase não viu nada. Sentiu-se desfalecendo, derretendo. “Será que o espelho resolveu também me pregar peças?”, pensou. Gritou e não ouviu sua voz, não tinha voz.
Rapidamente foi até a janela, abriu-a violentamente e deixou entrar o Sol que o penetrou como uma espada invisível. Olhou para a réstia no chão e no chão só a réstia e na réstia, só o chão. Ele continuava sem sombra. Tentou lembrar o nome dos filhos, não lembrou, o seu endereço, não lembrava, o dia do seu aniversário, não sabia , a sua idade também não. Pôs as duas mãos na cabeça. Levou o queixo ao peito e fechou os olhos como se quisesse ver os seus pensamentos e não ouvir o que já sabia. Não sabia o que fazer.
Foi até a rua e resolveu fazer o que mais temia, falar com as pessoas e perguntar-lhes alguma coisa: por que isso estava acontecendo? Saiu sem roupa, não ligou, foi de encontra à multidão, esbarrando em tudo e em todos. Tentou interceptar alguém, esta passou como se ele não existisse. Diante da impossibilidade, ficou até feliz por ter se poupado. Resolveu não ir trabalhar, não queria mais. Perdeu a noção do tempo. Sem roupa mesmo foi até o bar, bateu na porta com força. Ninguém se moveu, ninguém o olhou. Sentia-se feito uma mosca. Uma mosca que não incomodava, que estava nos seus últimos minutos. Sentou-se ao balcão, olhou em volta. Dirigiu-se até uma mulher e em desespero tentou pronunciar algo. Soou trôpego, incompreensível. Esta o olhou como se visse através dele. “O mundo virou um baile onde todos não sabiam por que foram convidados e quem os convidou. Tudo era vício e indiferença”, pensou. Como não se arriscava mais a falar, gesticulou ao garçom, fazendo, com as mãos no ar, um copo invisível. O garçom, não lhe trouxe a bebida. Claro! Subiu no balcão e finalmente gritou como um alucinado, usando nisso todas as forças que lhe restavam. Mas todos riam, todos gargalhavam com coisas que na verdade deveriam estar chorando. Desceu do balcão como um inseto. Cruzou a porta e não olhou para trás. Sentiu-se se despedindo do mundo e o mundo dele. Caminhava nu, só e sem rumo, invisível. Seguia, porque tinha a sensação que se parasse, desaparecia de vez. Precisava de movimentos. Foi quando, às suas costas, alguém pronunciou seu nome. Ele olhou rapidamente para trás como quem leva um forte soco. Pediram-lhe cigarro. Disse que não tinha, mas ficou feliz. Notou um grupo de pessoas em frente ao bar. Não viu os rostos, nem suas roupas, porém sentiu que todas lhe sorriam. Aproximou-se e viu que tudo ia ficar bem agora. Enquanto se aproximava, uma delas gentilmente lhe falou:

        _ Bem vindo ao mundo das sombras...

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