Espertos

sábado, 3 de março de 2012

Cachaprego: um livro para ser lido numa trincheira.


Em Outubro de 1870, Rimbaud dizia ao amigo Delahaye que iria escrever numa língua nova, inventada: “Para criar uma linguagem poética que fale a todos os sentidos, vou pegar palavras dos vocabulários eruditos e técnicos, de línguas estrangeiras, de onde for possível...” Lendo esse trecho de uma das biografias romanceadas do bardo genial de Charleville, não posso deixar de pensar que Wilmar Silva, em Cachaprego, não só dá continuidade a essa busca febril; como tenta ampliá-la em todas suas possibilidades. Cachaprego é um dos livros mais experimentais da poética de abismos do bardo mineiro e, portanto um livro difícil. Nele não há o menor espaço para leitores desavisados e impacientes. As páginas são como solo íngreme que deve ser percorrido com os pés descalços. Não poderia ser diferente. Não estamos falando de uma poesia, num final de tarde de domingo; sentada à porta de sua casa com o cabelo penteado para o lado e com sua roupinha de marinheiro cheirando a naftalina. Estamos falando de uma poesia linguisticamente inventiva.

Em Cachaprego nada é alheatório. No primeiro momento tudo parece desordenado, mas ao concluí-lo temos a certeza de que tudo está em seu devido lugar. Temos essa impressão, porque há palavras dentro de palavras, frases dentro de frases, poemas dentro de poemas e até talvez um livro dentro do outro. Neologismos (ou algo muito, além disso, pois essa palavra não é suficiente para definir os sons e os sentidos das palavras que se aglomeram umas as outras feito micro-organismos buscando uma nova existência) saltitam das páginas como seres em brasa. Em Cachaprego tudo está prenhe. O poeta furou os olhinhos verdes das palavras para que por esses orifícios emergisse toda a essência. Nesse livro livre; corajoso (Pois liberdade sem coragem é estéril) o poeta das Geraes assinala uma poesia densa, surpreendente. Uma poesia que nunca descansa.  Que parece estar constantemente na ponta dos pés, como a tentar, a todo o momento, visualizar o que está além dos muros do conformismo, da comodidade, da preguiça, da repetição.

Em um dos trechos do poema que abre o livro, ele diz: Eu só escarevo quando esqueço qui há mais que fdolhas e qmais papaeis eu levo para dentro da memeória. Para tentar explicá-lo, me permitam voltar ao bardo francês. Rimbaud antes de tudo foi um parnasiano. Em sua adolescência se debruçou por um longo período sobre os trabalhos dos antigos.  Chegou até escrever um poema em latim. O poeta que ele mais admirava era Paul Verlaine (muito antes de tornarem-se amantes) um parnasiano de carteirinha. Num outro continente, Oswald de Andrade dizia que era preciso se nutrir das raízes para poder redimensionar o presente, em busca de uma poesia encontrada na simplicidade do homem natural. Dizia ainda, que era preciso escrever “como falamos, como somos” Fiz essa analogia entre Rimbaud e Oswald para dizer que muito antes desses dois inegáveis grandes poetas se tornarem importantes figuras de vanguardas, se debruçaram sobre o que de melhor já tinha sido feito por seus predecessores. Voltando ao verso do Wilmar, e aproveitando a analogia; quando ele diz “escraevo”, podemos ler facilmente “Escrevo e Escavo” duas palavras de diferentes sentidos, mas quando aplicadas ao ofício da escrita, dá no mesmo. (É aqui que entra Rimbaud. O bardo de Ardenas chegou a criar o verbo “Robinsonar” em homenagem a Robinson Crusoé) O que é escrever se não escavar palavras? Pra depois cortá-las, como dizia Drummond, é certo, mas primeiro escavá-las. No mesmo verso ele usa o “qui” ao invés do “que”, ou seja, mesmo se utilizando de herméticos neologismos, ele não abre mão do coloquial. Não é assim que falamos? É aqui que entra o Oswald (Uma poesia encontrada na simplicidade do homem natural) Mas vamos em frente. Ainda no mesmo verso temos fdolhas: Aqui podemos ler “folhas” e ao mesmo tempo o verbo “doar” na terceira pessoa do subjuntivo; “Doas” Temos ainda “qmais” uma só palavra para a expressão “que mais” Oswald de novo. Depois vem papaeis: a dualidade outra vez? “Papais e Papeis” aqui me parece uma alusão ao passado e isso é reforçado pelo resto do verso: eu levo para dentro da memeória. “memeória”: Memória flertando com mimiógrafo? Estarei viajando? Se viajo, então estou no caminho certo.

Cachaprego é punk meu amigo. É desbravador como um Kerouac. É um soco Bukowskiano bem no estômago de regrinhas bem comportadas. Não espere ler esse livro numa manhã de domingo de sol e céu azul, numa poltrona confortável e com uma bebida ao alcance da mão, não. Cachaprego nasceu pra ser lido numa corda bamba, num campo minado, num campo de batalha, numa trincheira, nos fronts diários. Esse livro é um convite ao baile da inquietação. Wilmar é um poeta do desconforto, do desafio, do inventivo. Observe uma das fotos do livro (esqueci de dizer que metade do livro consiste de fotos onde o autor aparece em algumas delas. Fotos do artista Sandro vieira, que dialogam com os poemas e vice-versa. Posso dizer que são poemas em close) em que ele abre um guarda-chuva sob um sol torrencial do sertão mineiro. O que é isso se não uma afronta, um desafio? Outra foto que me intriga é uma em que o autor está sentado, com uma enxada no ombro e os olhos fixos no chão. Isso me remete ao momento “Criação e papel em branco”. O esforço de um autor em tentar escrever aquilo como realmente pensa. Só um escritor de verdade conhece esse momento de dor e delícia.
Como Sísifo, Wilmar está constantemente tentando levar a pedra para o pico, afinal de contas o que é poesia se não um constante meio de auto-superação. Já dizia Quintana: “Um poeta satisfeito não satisfaz” Que Wilmar continue experimentando, para que livros intrigantes, densos, inventivos como esse continuem aparecendo.
Em minha mão erguida, trago uma taça transbordante de fada verde: Um brinde aos poetas; não àqueles que depois de muito tempo, continuam a percorrer os caminhos que um dia foram descobertos por outros, mas sim, aos poetas que já não mais satisfeitos, com estes caminhos, criaram suas próprias trilhas com seus coturnos impregnados de Poesia. Para Wilmar Silva: Cheers!



Reynaldo Bessa
Músico, poeta, escritor
autor de “Outros Barulhos – Poemas”
Prêmio Jabuti 2009 (Poesia)
e Algarobas Urbanos (contos)

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