Em Outubro de 1870, Rimbaud dizia ao amigo Delahaye que iria escrever numa língua
nova, inventada: “Para criar uma linguagem poética que fale a todos os
sentidos, vou pegar palavras dos vocabulários eruditos e técnicos, de línguas
estrangeiras, de onde for possível...” Lendo esse trecho de uma das biografias
romanceadas do bardo genial de Charleville,
não posso deixar de pensar que Wilmar
Silva, em Cachaprego, não só dá
continuidade a essa busca febril; como tenta ampliá-la em todas suas
possibilidades. Cachaprego é um dos livros mais experimentais da poética de
abismos do bardo mineiro e, portanto um livro difícil. Nele não há o menor
espaço para leitores desavisados e impacientes. As páginas são como solo
íngreme que deve ser percorrido com os pés descalços. Não poderia ser
diferente. Não estamos falando de uma poesia, num final de tarde de domingo;
sentada à porta de sua casa com o cabelo penteado para o lado e com sua
roupinha de marinheiro cheirando a naftalina. Estamos falando de uma poesia linguisticamente
inventiva.
Em Cachaprego nada é
alheatório. No primeiro momento tudo parece desordenado, mas ao concluí-lo
temos a certeza de que tudo está em seu devido lugar. Temos essa impressão,
porque há palavras dentro de palavras, frases dentro de frases, poemas dentro
de poemas e até talvez um livro dentro do outro. Neologismos (ou algo muito,
além disso, pois essa palavra não é suficiente para definir os sons e os
sentidos das palavras que se aglomeram umas as outras feito micro-organismos
buscando uma nova existência) saltitam das páginas como seres em brasa. Em
Cachaprego tudo está prenhe. O poeta furou os olhinhos verdes das palavras para
que por esses orifícios emergisse toda a essência. Nesse livro livre; corajoso
(Pois liberdade sem coragem é estéril) o poeta das Geraes assinala uma poesia densa, surpreendente. Uma poesia que
nunca descansa. Que parece estar constantemente
na ponta dos pés, como a tentar, a todo o momento, visualizar o que está além
dos muros do conformismo, da comodidade, da preguiça, da repetição.
Em um dos trechos do poema
que abre o livro, ele diz: Eu só escarevo
quando esqueço qui há mais que fdolhas e qmais papaeis eu levo para dentro da
memeória. Para tentar explicá-lo, me permitam voltar ao bardo francês.
Rimbaud antes de tudo foi um parnasiano.
Em sua adolescência se debruçou por um longo período sobre os trabalhos dos
antigos. Chegou até escrever um poema em
latim. O poeta que ele mais admirava era Paul
Verlaine (muito antes de tornarem-se amantes) um parnasiano de carteirinha.
Num outro continente, Oswald de Andrade
dizia que era preciso se nutrir das raízes para poder redimensionar o presente,
em busca de uma poesia encontrada na simplicidade do homem natural. Dizia ainda,
que era preciso escrever “como falamos, como somos” Fiz essa analogia entre
Rimbaud e Oswald para dizer que muito antes desses dois inegáveis grandes
poetas se tornarem importantes figuras de vanguardas, se debruçaram sobre o que
de melhor já tinha sido feito por seus predecessores. Voltando ao verso do
Wilmar, e aproveitando a analogia; quando ele diz “escraevo”, podemos ler facilmente “Escrevo e Escavo” duas palavras de
diferentes sentidos, mas quando aplicadas ao ofício da escrita, dá no mesmo. (É
aqui que entra Rimbaud. O bardo de Ardenas
chegou a criar o verbo “Robinsonar”
em homenagem a Robinson Crusoé) O que
é escrever se não escavar palavras? Pra depois cortá-las, como dizia Drummond, é
certo, mas primeiro escavá-las. No mesmo verso ele usa o “qui” ao invés do
“que”, ou seja, mesmo se utilizando de herméticos neologismos, ele não abre mão
do coloquial. Não é assim que falamos?
É aqui que entra o Oswald (Uma poesia encontrada na simplicidade do homem
natural) Mas vamos em frente. Ainda no mesmo verso temos fdolhas: Aqui podemos ler “folhas” e ao mesmo tempo o verbo “doar”
na terceira pessoa do subjuntivo; “Doas” Temos ainda “qmais” uma só palavra
para a expressão “que mais” Oswald de novo. Depois vem papaeis: a dualidade outra vez? “Papais e Papeis” aqui me parece uma
alusão ao passado e isso é reforçado pelo resto do verso: eu levo para dentro da memeória. “memeória”: Memória flertando com
mimiógrafo? Estarei viajando? Se
viajo, então estou no caminho certo.
Cachaprego é punk meu
amigo. É desbravador como um Kerouac. É um soco Bukowskiano bem no estômago de
regrinhas bem comportadas. Não espere ler esse livro numa manhã de domingo de
sol e céu azul, numa poltrona confortável e com uma bebida ao alcance da mão,
não. Cachaprego nasceu pra ser lido numa corda bamba, num campo minado, num
campo de batalha, numa trincheira, nos fronts
diários. Esse livro é um convite ao
baile da inquietação. Wilmar é um poeta do desconforto, do desafio, do
inventivo. Observe uma das fotos do livro (esqueci de dizer que metade do livro
consiste de fotos onde o autor aparece em algumas delas. Fotos do artista Sandro vieira, que dialogam com os
poemas e vice-versa. Posso dizer que são poemas em close) em que ele abre um
guarda-chuva sob um sol torrencial do sertão mineiro. O que é isso se não uma
afronta, um desafio? Outra foto que me intriga é uma em que o autor está
sentado, com uma enxada no ombro e os olhos fixos no chão. Isso me remete ao momento
“Criação e papel em branco”. O esforço de um autor em tentar escrever aquilo como
realmente pensa. Só um escritor de verdade conhece esse momento de dor e
delícia.
Como Sísifo, Wilmar está
constantemente tentando levar a pedra para o pico, afinal de contas o que é
poesia se não um constante meio de auto-superação. Já dizia Quintana: “Um poeta
satisfeito não satisfaz” Que Wilmar continue experimentando, para que livros intrigantes,
densos, inventivos como esse continuem aparecendo.
Em minha mão erguida,
trago uma taça transbordante de fada
verde: Um brinde aos poetas; não àqueles que depois de muito tempo,
continuam a percorrer os caminhos que um dia foram descobertos por outros, mas sim,
aos poetas que já não mais satisfeitos, com estes caminhos, criaram suas
próprias trilhas com seus coturnos impregnados de Poesia. Para Wilmar Silva: Cheers!
Reynaldo Bessa
Músico, poeta, escritor
autor de “Outros Barulhos – Poemas”
Prêmio Jabuti 2009 (Poesia)
e Algarobas Urbanos (contos)
Músico, poeta, escritor
autor de “Outros Barulhos – Poemas”
Prêmio Jabuti 2009 (Poesia)
e Algarobas Urbanos (contos)
Nenhum comentário:
Postar um comentário