Espertos

terça-feira, 12 de junho de 2012

ùltima lembrança....

         Uma vez assisti um filme japonês: ao morrer as pessoas precisavam, antes de partir para um lugar desconhecido, escolher uma única lembrança de toda a sua vida. Sim, uma apenas. Depois de escolhida, "eles" a montariam quase que fielmente (a fidelidade dependia da precisão das informações fornecidas) e a encenavam. Depois disso a pessoa partiria.
Havia uma mulher que brincava com as flores e que estava condenada a ficar pra sempre no "antes", porque não conseguia se lembrar de nada. Eu lembraria: noite, meu irmão mais velho com uma cabeleria enorme e a cara repleta de espinhas, dentro do quarto escuro, ouvindo na radiolinha vermelha os seus ídolos de sempre. Minha irmã caçula estava no berço ronronando como um gatinho. Minha irmã do meio insitia em fazer a sua lição de casa. Brigava com o lápis que quebrava a ponta sempre que ela tentava colocar seus garranchos sobre a folha de papel. Colocava tanta força que a rasgava. Sempre que ela xingava, eu sabia que a ponta do lápis havia quebrado novamente. Eu ria tristemente. Porque é assim que rimos quando temos perguntas demais e nenhuma resposta e muito futuro pela frente.
Meu pai de banho tomado, cabelo bem penteado, discutia com o Cid Moreira. Duvidava das noticias. Minha irmã mais velha no portão com seu namoradinho. Vez enquando os olhos dela se encontravam com os do meu pai. Minha mãe, linda, olhos de gato, entrava e saía da casa constantemente. Ora era isso, ora era aquilo. Um entra-e-sai sem fim que por alguns segundos meu pai descolava os olhos da televisão e os colava nela.
Tinha acabado de chover e um cheiro forte de dama da noite entrava em casa brigando com o cheiro de sopa que minha mãe acabara de fazer. Eu? eu estava em todos lugares e em nenhum. Olhava tudo. Pintaria esse momento. Faria dele uma cabala de areia. Me debruçaria sobre essa lembrança horas a fio e cuidaria para que minhas lágrimas não maculassem tanta beleza vivida. Olharia essa cabala-vida-lembrança e depois de um profundo suspiro, a sopraria ao vento.

Porque as melhores lembranças pertencem ao infinito.

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