Espertos

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sonhos de Valsa

          Ao chegar de viagem, meu pai pousava sua mala 007 sobre a mesa como se fosse ajoelhar e rezar. Ao abrí-la, os estalos das fechaduras fazía-nos vibrar de curiosidade, até os ossos. De dentro dela, saía um cheiro de cidades distantes. De lá, ele tirava um chocolate Sonho de Valsa para cada um de nós. Nos passava como se estivesse nos entregando a chave de nossas vidas. Eu e meu irmão, com sofreguidão, devorávamos o pequeno bombom. A maioria de nós fazia isso, mas uma de nossas írmãs fingia que devorava o seu e, quando achávamos que o fato estava consumado (ou consumido) ela surgia das cinzas com o seu chocolate inteirinho entre os lábios. Incrédulos, olhávamos para ela com os olhos cheios de saliva.

[doce crueldade infantil]

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