Sonhos de Valsa
Ao
chegar de viagem, meu pai pousava sua mala 007 sobre a mesa como se
fosse ajoelhar e rezar. Ao abrí-la, os estalos das fechaduras fazía-nos
vibrar de curiosidade, até os ossos. De dentro dela, saía um cheiro de
cidades distantes. De lá, ele tirava um chocolate Sonho de Valsa para
cada um de nós. Nos passava como se estivesse nos entregando a chave de
nossas vidas. Eu e meu irmão, com sofreguidão, devorávamos o
pequeno bombom. A maioria de nós fazia isso, mas uma de
nossas írmãs fingia que devorava o seu e, quando achávamos que o fato
estava consumado (ou consumido) ela surgia das cinzas com o seu chocolate
inteirinho entre os lábios. Incrédulos, olhávamos para ela com os olhos
cheios de saliva.
[doce crueldade infantil]
Nenhum comentário:
Postar um comentário