A vida tinha cheiro de peixe fresco....
quando
eu me encontrava longe, além de todas as fronteiras, num país de nome
estranho até para seus nativos e toda a febre fora de mim queimava tudo
em volta e a infecção dentro de mim queimava tudo dentro e fora e tudo
doía, todo final de tarde eu sentia um cheiro de peixe fresco invadir a
minha janela e buscar minhas narinas; A vida tem cheiro de peixe fresco?
eu me perguntava em minha agonia. A infecção doía, mas não doía tanto
quanto o oco, o vazio, a ausência dela. Meu coração era como uma casa
vazia com manchas nas paredes onde um dia foram quadros colocados com
alegria. Passei vários dias ardendo no corpo e na alma e quando achei
que morreria, quando achei que tudo estava consumado...entrei em
coma...e tive sonhos estranhos (os sonhos já são estranhos, sim, mas
eram como sonhos além dos sonhos) e estava tudo certo. Mas houve um
despertar....ouvi um coro de meninos e um baque em algo que achei que
fosse uma bola. Falei: morrer não é tão ruim. Ah! se todos soubessem.
cambaleante fui até a janela. As gaivotas agouravam o azul. Veio de novo
o cheiro de peixe....forte...burburinhos, gritos ao longe...vi a imagem
de um livro se fechando e vi a poeira saindo de dentro dele. Lembrei-me
dela e um sorriso arranhou meu rosto. Com um vento generosamente
varrendo minha cara, pensei: esquecer alguém não é tão dificil. Dificil
mesmo é morrer...
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