Já
senti a pegada da solidão como um golpe
quase fatal: após o término de um relacionamento de muitos anos, entrei
em um supermercado pra comprar um vinho. Mais um ano ia terminar. As
pessoas se confraternizavam e sorriam com aquela falsa alegria que só dura até o
término da tagarelice dos fogos de artifícios (sempre isso) e eu queria
matar o mundo. Encontrei as gôndolas
vazias e ainda por cima tocou uma música que era a predileta dela. Isso
doeu, mas não tanto quanto agora: entrei num boteco fechando
(cadeiras sobre as mesas) e tocava "Coração de estudante" do Milton
Nascimento. É demais. Saí do boteco como se eu tivesse deixado uma bomba
programada pra explodir segundos depois.
(Reynaldo Bessa)
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