Quando eu entrava em casa sentia
como se o cheiro de Giovanna Baby
passasse a mão sobre a testa do meu tambor desesperado. Desesperado em parte
por sonhar demais e noutra por fracassar demais. Sentia vontade de acender um
cigarro e esquecer os passos em falsos do passado, mas preferia sentir aquele
cheiro. Não exatamente pelo cheiro em si ou em ré, mas por saber que ele estava
lá, naquele quarto e sonhando nuvens sob um
edredom macio e tão cheiroso quanto ele. Depois de um tempo eu ia até lá e o
olhava. Dava vontade de por os dedos em seus cabelos anelados, dourados, como
anéis de reis infantis. Dormia como se o mundo estivesse seguro. Assim são as
crianças. Eu amordaçava meu coração barulhento e procurava ouvir o som de sua
respiração. Não ouvia nada. Era tudo silêncio como um peixinho dourado passeando
sob um aquário-edredom-macio. Até quando? Eu pensava. Depois de um tempo o
beijava e sentia a temperatura quentinha dos seus sonhos. Ele se remexia como a
pedir outro beijo de boa madrugada. Depois o cansaço, a madrugada e as perguntas
sem respostas me venciam.
No dia seguinte, eu despertava com algo percorrendo meu queixo, meus cabelos. Nuvens atravessando os meus sonhos intranquilos. Eu abria os olhos como cortinas lentas e pesadas e o via ali, diante de mim, como uma barra de ouro com duas pérolas incrustadas e me olhando cheias de perguntas sem respostas. Ele não sabia ainda dizer bom dia e por isso, soltava apenas um “tio?” cheirando a Giovana Baby. Eu levantava e preparava-lhe torradas francesas e ouvia seus silêncios cheios de perguntas ainda sem respostas.
Um dia o vi passar pela porta com sua mochila pesada de livros, equações e sonhos adolescentes. Depois o vi arrastando uma menina de sorriso triste. Ele a trazia pela mão como um jornal que nunca seria lido. Depois o vi com outra menina que fazia tanto barulho que deixou todo o mundo mudo. Mudo de tudo e de nada. Depois o vi bradando espadas que não eram mais de brinquedos. Depois o vi montado em dragões que não eram também de brinquedos. Um dia ele entrou de terno e gravata e cheio de respostas. E eu fiquei ali, cheio de perguntas. Você se lembra das torradas francesas? Perguntei. E ele, Hein? E eu fiquei ali como um cigarro apagado. Olhando-o.
No dia seguinte, eu despertava com algo percorrendo meu queixo, meus cabelos. Nuvens atravessando os meus sonhos intranquilos. Eu abria os olhos como cortinas lentas e pesadas e o via ali, diante de mim, como uma barra de ouro com duas pérolas incrustadas e me olhando cheias de perguntas sem respostas. Ele não sabia ainda dizer bom dia e por isso, soltava apenas um “tio?” cheirando a Giovana Baby. Eu levantava e preparava-lhe torradas francesas e ouvia seus silêncios cheios de perguntas ainda sem respostas.
Um dia o vi passar pela porta com sua mochila pesada de livros, equações e sonhos adolescentes. Depois o vi arrastando uma menina de sorriso triste. Ele a trazia pela mão como um jornal que nunca seria lido. Depois o vi com outra menina que fazia tanto barulho que deixou todo o mundo mudo. Mudo de tudo e de nada. Depois o vi bradando espadas que não eram mais de brinquedos. Depois o vi montado em dragões que não eram também de brinquedos. Um dia ele entrou de terno e gravata e cheio de respostas. E eu fiquei ali, cheio de perguntas. Você se lembra das torradas francesas? Perguntei. E ele, Hein? E eu fiquei ali como um cigarro apagado. Olhando-o.
Até que ele se foi. E não houve
tempo para despedidas, porque essas coisas acontecem sob o macio edredom das madrugadas
frias e silenciosas e às vezes com chuvas eternas. Não há trens, aviões,
ônibus, navios, nada. Só um silêncio vindo e depois indo de vez e ficando para
sempre. Ele se foi tão silencioso como uma folha soltando-se de um galho. É, ele
se foi homem e levou consigo o menino de luz que em algum lugar ainda está nele
num lugar qualquer. E eu fiquei aqui. Eu, minha barba e meus sonhos grisalhos.
Cá estou, dentro de uma loja, fuçando frascos de perfumes da Giovanna baby,
como a tentar me certificar se isso realmente aconteceu.
(reynaldo bessa)
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