Espertos

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sempre que saio à noite costumo deixar algum dinheiro na carteira para poder comprar produtos que alguns desses homens muito simples, resolvem vender quando a noite já está praticamente terminando. Compro tudo. Mesmo que depois não saiba ou não tenha o que fazer com eles. Aprendi isso com meu pai: numa certa noite, lá pelas 22h, vimos um homem de aproximadamente sessenta anos: banho tomado, cabelo bem penteado, e cheirando a loção pós-barba. Andava pelas ruas como se o dia tivesse acabado de nascer. Vendia sandálias feitas por ele mesmo. Carregava apenas três pares de números diferentes. Não pareciam novas. Apenas bem conservadas. Meu pai o chamou, e lhe perguntou o preço. O homem com gestos medidos e silenciosos, como um padre iniciando uma missa, numa voz titubeante - talvez por receio de perder seu único comprador em potencial naquela noite tão urgente – lhe respondeu. Meu pai comprou todos. O homem guardou o dinheiro no bolso como quem protege um remédio escasso que precisa levar para algum enfermo em casa. Nunca esquecerei o olhar que os dois trocaram nessa noite que ainda parece caminhar ao meu lado – antigamente os homens negociavam como se fizessem parte de uma confraria - Dentro da minha pré-adolescência labiríntica - na fase em que um frango começa a virar um galo, apesar de toda luta Perterpanica – com minha voz de gato engasgado, disse: “mas, pai, aqui ninguém calça esses números”. E ele me respondeu: “Mas a fome calça”.

(Reynaldo Bessa - Cores da infância)

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