Sempre que saio à noite costumo deixar algum
dinheiro na carteira para poder comprar produtos que alguns desses
homens muito simples, resolvem vender quando a noite já está
praticamente terminando. Compro tudo. Mesmo que depois não saiba ou não
tenha o que fazer com eles. Aprendi isso com meu pai: numa certa noite,
lá pelas 22h, vimos um homem de aproximadamente sessenta anos: banho
tomado, cabelo bem penteado, e cheirando
a loção pós-barba. Andava pelas ruas como se o dia tivesse acabado de
nascer. Vendia sandálias feitas por ele mesmo. Carregava apenas três
pares de números diferentes. Não pareciam novas. Apenas bem conservadas.
Meu pai o chamou, e lhe perguntou o preço. O homem com gestos medidos e
silenciosos, como um padre iniciando uma missa, numa voz titubeante -
talvez por receio de perder seu único comprador em potencial naquela
noite tão urgente – lhe respondeu. Meu pai comprou todos. O homem
guardou o dinheiro no bolso como quem protege um remédio escasso que
precisa levar para algum enfermo em casa. Nunca esquecerei o olhar que
os dois trocaram nessa noite que ainda parece caminhar ao meu lado –
antigamente os homens negociavam como se fizessem parte de uma confraria
- Dentro da minha pré-adolescência labiríntica - na fase em que um
frango começa a virar um galo, apesar de toda luta Perterpanica – com
minha voz de gato engasgado, disse: “mas, pai, aqui ninguém calça esses
números”. E ele me respondeu: “Mas a fome calça”.
(Reynaldo Bessa - Cores da infância)
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