seus olhos não eram menos interessantes:
duas borboletas azuis de asas enormes e repletas de hieróglifos e
que abriam-se minuto a minuto como um relógio lânguido... úmido...
sonolento..cheio de vida movediça...
mas quando vi a sua boca fiquei ali como um homem esperando
um navio que um dia havia cruzado um dos seus sonhos.
Cílios de pura hesitação como uma fruta pronta e que
a qualquer momento pode cair.
E eu
tinha que ver aquela queda vermelha de tanto vermelho
maduro... De repente o diálogo era uma boca, eu era uma boca, o mundo
era uma boca... tudo era uma boca...
pude sentir a umidade de cada
vinco...confesso que me perdi neles como um homem que chega numa cidade
desconhecida... eram vincos como ruas largas que acabam em becos
sem-saída... como uma música da Ella Fitzgerald que nunca acaba e dói, dói e dói...
E meus olhos estavam entregues como condenados em seu último dia de liberdade
E eu a olhava e pensava, que boca, que boca...
E as palavras não me serviram para nada... Elas eram como um sabre nas mãos de um soldado morto....
E eu a olhei como uma pintura de uma escola que ainda iria chegar e a
li como um cego.... ou um analfabeto diante da grande literatura
vermelha, doendo... e eu a guardei como um mineiro que sai da mina escura e
sente um cheiro bom e diz.... o que é isso? O que é isso? O que é isso? E
morre sem resposta... E era só uma boca, uma boca, uma boca... Uma catedral dissolvendo-se em minha língua.
(Reynaldo Bessa)
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