Espertos

terça-feira, 29 de abril de 2014

seus olhos não eram menos interessantes:
duas borboletas azuis de asas enormes e repletas de hieróglifos e 

que abriam-se minuto a minuto como um relógio lânguido... úmido... 
sonolento..cheio de vida movediça...
mas quando vi a sua boca fiquei ali como um homem esperando
um navio que um dia havia cruzado um dos seus sonhos.
Cílios de pura hesitação como uma fruta pronta e que
a qualquer momento pode cair.
E eu tinha que ver aquela queda vermelha de tanto vermelho maduro... De repente o diálogo era uma boca, eu era uma boca, o mundo era uma boca... tudo era uma boca...
pude sentir a umidade de cada vinco...confesso que me perdi neles como um homem que chega numa cidade desconhecida... eram vincos como ruas largas que acabam em becos sem-saída... como uma música da Ella Fitzgerald que nunca acaba e dói, dói e dói...
E meus olhos estavam entregues como condenados em seu último dia de liberdade
E eu a olhava e pensava, que boca, que boca...
E as palavras não me serviram para nada... Elas eram como um sabre nas mãos de um soldado morto....
E eu a olhei como uma pintura de uma escola que ainda iria chegar e a li como um cego.... ou um analfabeto diante da grande literatura vermelha, doendo... e eu a guardei como um mineiro que sai da mina escura e sente um cheiro bom e diz.... o que é isso? O que é isso? O que é isso? E morre sem resposta... E era só uma boca, uma boca, uma boca... Uma catedral dissolvendo-se em minha língua.

(Reynaldo Bessa)

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