Espertos

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

acabei de morrer
daqui a pouco o Datena vai anunciar
a minha morte
estou aqui, em meu velório, rindo do meu corpo
tão frágil, arrumadinho, limpinho, perfumado para o estrago.
ah, a morte, pensei tanto nela como pensei
num amor impossível
imaginei tantas coisas sobre ela
como imaginei curvas sob vestidos
mas não é nada daquilo que eu pensei e
agora não quero escrever sobre isso porque
nem há mais a necessidade.
não há papel, nem lápis aqui. Computador? puurrr
nada.
agora sou tudo o que sempre quis:
apenas uma chama de um pensamento
parte de uma chama maior.
descobri que eu era apenas uma vela sonhando em iluminar o mundo todo.
cada qual no seu cada qual.
estou aqui diante de mim e cada vez mais distante de mim
como alguém, em algum lugar diminuindo o zoom....
não posso evitar um risinho sacana no canto da boca.
oh, benevolência.
o homem pinta o que ele é.
ele tem a paz ou a turbulência que lhe cabe.
nascerá no país que pediu
terá os filhos que merece.
hummm...e estas árvores? E este vento?
o que virá agora?
haverá tédio também aqui?
pode ser. Pode ser.

(Reynaldo Bessa)

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