Espertos

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

a foto do meu pai ainda jovem:
seus olhos longe feito navios encalhados,
e seus óculos com um durex em uma das pontas – como sempre - e
isso me prende como alguém tentando enxergar no escuro...
e vejo o corte do cabelo, sua camisa branquinha, e
feito um motorista dirigindo sob a chuva, tento ler algo na paisagem,
mas tudo é como num sonho espatifado e que
tento evitar um corte nos inúmeros cacos espalhados pelo chão... (Cortázar detestava as reticências)
sua boca sutilmente puxada para o canto me faz pensar numa alfinetada do destino segundos antes do click...
parece que não tinha ainda bebido nada, pois seus cabelos estavam sagradamente penteados e sua pele não era a de um índio pintado para a guerra
olho a foto e me vejo nela
como meu rosto refletido num lago.
é como se a foto me olhasse de dentro do seu tempo.
feito um bichinho assustado me espreitando da toca:
talvez os olhos dele que também são meus,
talvez seus sonhos esquecidos pelo caminho que é onde estou agora
e ele me olha
e eu o olho
e quem é quem?
por um momento penso ter ouvido uma pergunta,
e logo me concentro em seus navios encalhados....
sua papada, sua camisa branquinha...
quantas palavras naqueles olhos...
sei que é apenas uma foto,
talvez por isso mesmo farei agora todas as perguntas
que o tempo, a covardia e a distância não me permitiram...
pai, lembra daquelas cítaras que o.....



(Reynaldo Bessa)

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