Espertos

domingo, 19 de abril de 2015

Inumano, demasiado, inumano.


Muitas vezes não sabemos bem o que pensamos, e ainda pior; o que sentimos. Uma coisa tá ligada à outra, claro: sentimos o pensar e pensamos o sentir. Somos sinestésicos, assim como a bananeira é uma pacoveira, porém tudo isso acontece mais rápido que num piscar de olhos, e portanto, muitas vezes nem percebemos o porquê tal coisa nos causa tal sensação. Enfim, não gosto das vozes metálicas dos anúncios nos Metrôs. Não importa onde. Pode ser em São Paulo, Madrid, Paris, Londres ou até até mesmo nos Jardins Suspensos da Babilônia. O perfil é sempre o mesmo. Por algum motivo, não me sinto bem, já disse, com estes avisos que invadem a nossa paciência sem nem bater os pés no tapete da porta da frente.

“Srs. Usuários, não ultrapassem a faixa amarela”.

Srs, usuários? Não há mesmo uma expressão mais camarada? E o verbo sempre no imperativo? Eles não aprenderam a conjugar os outros modos do mesmo verbo? Há um tempo mais antipático e autoritário do que o imperativo? É só perguntar às crianças. Perguntem-lhes o que elas sentem diante de um: coma, durma, cala a boca, beba, e por ai vai... 

“Sr. Francisco, por favor, comparecer a SS, Ó!

Por Deus! Será que ele vai ser fuzilado? Ou até mesmo demitido? (Porque hoje em dia é melhor ser fuzilado que demitido). Bom. Mais uma:

“Srs, usurários, perdão, usuários não fiquem na região das portas”.

Claro que a maioria das pessoas gostaria mesmo era de estar na região nordeste, na praia, tomando uma gelada... Porém não é o caso aqui, né? Estamos mesmo é ali no canto, apertadinhos, espremidos, buscando o lugarzinho mais próximo possível da porta, para conseguirmos descer na estação do nosso destino. Porque os educados; aqueles que vão lá para o centro do trem, descem sempre duas estações depois, e isso quando conseguem descer. E nós, espermatozoides preguiçosos, mal-educados, apenas ficamos, ali, esperando o impulso da multidão desenfreada, para conseguirmos enfim, desembarcar. 

“Solicitamos a todos que evacuem a estação”.

Nossa mãe, "todos"? Todos quem? Nós? TODOS. Então, por que eles também não evacuam a estação? E "evacuem"? Palavrinha polissêmica, neutralizada pelo contexto, é certo, mas será que todos entendem o que significa polissemia, contexto, neutralidade? Acho que não. Então, enquanto um senhorzinho já desafivelava o cinto, fui logo lhe dizendo: “sinto, mas o senhor não entendeu. Num é “na” estação, é “a” estação. E tem um banheiro logo ali, ó!” Mas voltando a voz metálica, evacuar a estação por quê? Fica a nossa pergunta e o nosso olhar de gato que foi expulso pelo rato. Nunca sabemos o porquê.

Bom, há tantas outras e outras que ouvimos todos os dias sem pena. Avisos feito flechas saindo da floresta de concreto e frieza. uma ordem disfarçada de solicitação. Temos a impressão de que é preciso ficarmos em posição de sentido ou até mesmo batermos continência, sim, quando ouvimos estas vozes de lata arranhando nossas orelhas e o nosso dia de lata. 

ah, tem um jeito sim, sempre tem. O cara lá em cima ou lá embaixo, sei lá, vai saber, poderia dizer:
“Ei amigo, sim, você aí, é, você não está me vendo mais eu estou te vendo, coisas do ofício, mas amigo, poderia, por obséquio, dar dois ou três passinhos para trás da faixa amarela? Sim, é que se eu não te pedir isso, o meu chefe, sabe? Então, valeu, camarada, obrigado”. Ou:

“Queridíssimos amigos, aí, que estão nas portas, sei que é difícil, acredite, quando não estou aqui, nesta saleta gelada, estou ai também, e faço exatamente o mesmo que vocês, senão depois fica difícil descer, né? Gente demais, trem de menos, correria... mas amigos, amigos queridos do meu coração, poderiam afastar só mais um pouquinho para o canto. É que algumas pessoas vão descer na próxima estação, pode ser? Valeu camarada. Obrigadinho”.

Ah, e quando a voz de mulher, seria bom que fosse aquela voz rouca, malemolente, sensual, assim despertando todos os meus sonhos adolescentes dormindo sob a marquise da minha vida sem tempo. "Ei, bonitão, tudo bem? Sim, você, por favor, gatinho, não embarque nesse trem, ok? Porque ele não prestará serviço. Está com problemas técnicos e portanto vai para a revisão, mas olha, estou aqui, tá? Sempre prestativa. Tá a fim de pegar a sessão das cinco?

Ah, e ele ou ela, não importa, ainda podia, uma hora ou outra, nos intervalos dos anúncios, até assobiar  uma canção, tamborilar um sambinha do Adoniran... Também podia me pagar uma gelada, uma hora dessas, quem sabe, ou enviar-me, no meu aniversário, um email simpático, ou até mesmo um cartão, no natal, então, podia, nénão...?


(Reynaldo Bessa)

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