Espertos

quarta-feira, 20 de maio de 2015

às vezes saio da rota
como se mudasse meus passos da marcha
do tempo. Como uma foto que se desprende do velho álbum.
e fico ali, parado, feito quem vê o mundo pela primeira vez.
no meio de um carrossel, vejo as cenas repetindo-se, indo, vindo,rodando
e rio do meu nome, do que faço, do que sou
rio dos meus sonhos.
e escuto os sussurros das coisas. E vejo o invisível que sempre esteve ali
a folha na calçada em seu murchar ensurdecedor
o arranhar do sol, feito uma unha rasgando um tecido
o anjo pedindo socorro
e eu não tenho pai, nem mãe
e eu não vim de nenhum lugar
nem vou a lugar algum
e a morte não me mete medo
e eu não penso nos tapas que ela já me deu
apenas a vejo, feito um homem que observa uma silhueta de um desconhecido ao longe... olho tudo isso como se tivesse caído numa das armadilhas do tempo
sou como um bebê hipnotizado com o móbile
quando eu saio da rota, e mudo meus passos da marcha do tempo
ouço o frufru do vestido da vida
e, parado, como um peça eliminada do tabuleiro...
longe do jogo do afã insano, rio, apenas rio
e isso já é muito.


(Reynaldo Bessa)

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