Espertos

sexta-feira, 17 de julho de 2015

o rosto de minha mãe feito uma roupa rota,
úmida num varal em um quintal qualquer e escuro
farelos da linearidade em meus dedos finos
sonidos num corredor que já foi demolido há várias décadas
no meu coração há manchas de quadros quebrados
é uma parede bolorenta,
a lua descola-se feito uma pele morta
meu pai amordaçado pela mão peluda e gorda de alguém com ponteiros na testa.
minha coleção de selos flutuando feito estrelas atiradas aos pássaros mais agourentos.
uma casa sem portas
numa espiral dentro de outra espiral,

o tempo fumando num quarto de um hotel barato e soltando baforadas
redondinhas e risonhas, uf, uf.
universos inteiros dentro dessas coisinhas grávidas de efemérides
um sonho antigo feito uma velha gaiola cheirando a alpiste e morte
os compartimentos da casa sem casa são feitos de léguas e cansaço, e asma.
sou um grão, algo assim, e sobre minhas costas caem gotas salgadas do rosto velho dependurado num varal em um quintal qualquer e escuro, muito escuro, e longe.


(Reynaldo Bessa)

Nenhum comentário:

Postar um comentário