Espertos

domingo, 22 de novembro de 2015

As badaladas dos sinos da Sé
caindo sobre minha cabeça feito imensos girassóis.
Por alguns segundos sinto o arrepio da vida.
Aquela dentada que nos tira da morte sem mortalha.
E estou na superfície
posso ver...
posso ver...
Vejo meu corpo morto tentando me arrastar para o fundo...
e vejo os golpistas desdentados e loiros lambendo minha panturrilha
e ouço suas vozes de tobogã e sinto suas línguas de mel e veneno
e lembro daquelas que mentiram entre velas e garfadas afetadas
e com suas joias sorrindo serpentes
e por um segundo, esqueço a perda feito doídos buracos negros da memória
lembro das estrelas que me levaram,
o passado feito um coração chamuscado
posso ver...
posso ver...
na superfície, imensa e brilhante, onde não há navios,
nem horizontes, nem céu, nem dia e nem noite,
apenas um gigantesco girassol descendo lentamente feito uma aranha de ouro... e ,ali, eu, sem morte e sem medo,
ouvindo as badaladas dos sinos da Sé
arrastando-me feito uma linda sereia de peito arfante...


(Reynaldo Bessa)

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