Espertos

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

“Acabamos mesmo nos apegando àquilo que nos mata”








Mutilado: A que falta um membro. E o que faltava naquele tempo de agrura? Faltava um tanto. Um tanto concreto demais, duro. Um tanto de coisas e não coisas, materiais e imateriais. E qualé o tempo de agrura? É o ontem ou o até então? Pensei, atentando às nodosidades nas entrelinhas, sim, os nós na garganta vindo, mais ou menos apertados em cada capítulo. Deixei também escapar alguns sorrisinhos de canto de boca no prurir ininterrupto, na coisinha estranha por dentro, na coceirinha chistosa que as palavras – em algumas passagens – me causaram. De resto, era tudo meio em carne viva tentando cicatrizar. “É, ele não veio de gabarolice, não. O bichinho se rasgou todo pra gente ver, e depois deixou dito que tudo aconteceu ou não: fato real ou ficção, é história bem contada”, sussurrei na última página.
Final do mês de outubro de 2015, uma noite em um festival. Peguei o “Na última lona” das mãos do autor sem muito assunto. Naquela noite eu implodia, por várias razões. Algo estava me matando e eu não conseguia abandonar. Na manhã seguinte, como havia prometido durante a troca das poucas palavras com Bessa, peguei o volume nas mãos e folheei as páginas como se fosse pra guerra com uma mochila cheia de pedras nas costas, calçando um peep toe cor-de-rosa: num despreparo nítido. Seus escritos, que sempre me inspiraram mergulhos profundos e proporcionaram conclusões nem sempre tragáveis, nem sempre úteis, mais uma vez me apresentaram intensidades bonitas e doloridas, isto é, o tal do sofrimento sem função edificante dito na orelha do livro. Parei na segunda página: “não posso agora! Agora não vai dar!”. Tentei mais algumas vezes por novembro inteiro. Não li. Comentei com meio mundo que ia deixar pra outro dia. Comecei no natal, em meio a uma viagem, no que seria a segunda parte de um processo de imersão familiar, já no caminho de sentir que o ciclo de implosões internas estava se encerrando. Vamos às impressões, de vez.
O romance de Reynaldo Bessa – bem como outras obras do músico, escritor, poeta e professor – tem essa coisa de revolver o chão afetivo do leitor – intencionalmente ou não – promovendo a abrasão da certeza de que o passado é uma instância tombada, morta e enterrada. Trocando em miúdos, não fica pedra sobre pedra, filhão. No uso das palavras, que vão sempre ou quase sempre direto ao ponto, belisca o estômago subjetivo– cada um sabe o que o incomoda e onde fica o órgão dentro de si –e descreve o que não foi digerido nas ideias. Esta é sem dúvida uma narrativa na qual se corre o risco contínuo de encontrar algo que remeta a bigorna que cada um carrega por sobre a cabeça.
Peguei-me cavoucando as memórias diante da citação do sabonete Phebo, da boneca amiguinha, da maneira de deitar na rede, do deslumbre diante de Copacabana. E como ele apela! No bom sentido. Detalha e metaforiza o que cada um sente de um jeito, mas descreve parecido.Discorre sobre uma simplicidade bordada de singelezas, denuncia uma sensibilidade por detrás da grossura, deixa expresso o peso e a medida do amor, do ódio, da morte, da fome. E que fome. A fome dos tantos de que falei no início, mais ainda a fome de comida, pra preencher um vazio objetivo que aturdia os sentidos.
Menciona trabalho, dinheiro e uma graxa existente no mundo, que também distrai a ausência dos dois supracitados. Fica esfregando dor no papel como se estivesse a detalhar a textura de algum vestido de alguma moça que conheceu em alguma de suas viagens: como quem apalpou, passou na cara, pegou com a mão.Lambe saudade como desejou lamber alguns momentos. Fala de cada evento como se os houvesse injetado em alguma mucosa: tudo indo pro corpo inteiro, rápido, num impacto brusco pós dose cavalar de realidade.Não sei se é de um realismo mágico tipo García Márquez: o fato é que Bessa deu-me as imagens bem definidas e a imaginação passou por mim vez ou outra pra dizer que estava por perto, pra se caso eu precisasse de alguma coisa. Porque era tudo ali, na cara, sem essa de ache o gatinho na foto. Mas não importa muito, também. Cada um vai achar uma coisa, ou perder. E se é verdade que Acabamos mesmo nos apegando àquilo que nos mata, no passado, no presente, amanhã, que ao menos depois da morte sejamos passíveis de desapego, porque né, tem que haver um limite.Sugiro que leiam. Depois a gente conversa. Mas já digo logo: se estiver tristinho, com vontade de morrer, muitas contas atrasadas, saudade dos parentes, deixa pra amanhã. O livro já tá escrito mesmo. E muito bem escrito. Uma paulada no quengo.


Por Karina Limsi
psicóloga, compositora, blogueira e escritora.

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