Vai uma graxa aí, freguês?
Numa
madrugada, num aeroporto do Uruguai encontrei dois moleques engraxando sapatos. Eram irmãos. Um tinha onze anos e o outro quatorze. Eles ainda estavam
sonolentos como meninos que são arrebatados da cama, feito frutos
arrancados dos galhos antes do tempo. Os sapatos embaçados dos gringos, aos olhos dos dois moleques,
brilhavam como ouro. "Vai uma graxa ai, freguês?" Isso era o tempo todo. E nada.
Eu os observava atentamente. As pessoas estavam preocupadas com outras coisas. Ninguem queria engraxar. O mais novo coçava
os olhos como se chamasse a mãe.
Eu estava esperando meu voo que ia
demorar horas a fio. Estava ainda com os coturnos que usara no show que
acabara de fazer. Depois de alguns minutos, não aguentei mais e gritei:
"ei, quero engraxar" os dois se levantaram ao mesmo tempo como roupas
velhas no varal que são arrebatas por um vento traiçoeiro. Correram em
minha direção como se disputassem uma corrida. Falei: você engraxa o
coturno esquerdo e ele engraxa o coturno direito. Fiquei lá, com saudade
de casa e achando que aqueles meninos, nem que fosse por um breve
espaço de tempo, fossem meus filhos. Suas flanelas soavam como canções
sobre meus coturnos.
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