O frio e o fogo.
A
minha mão entre suas pernas, vez ou outra, sutilmente erguida pela
necessidade do uso da embreagem e do freio, era a única coisa realmente
aquecida no furor do frio daquela cidade melancólica e de pestanas quase
sempre semi cerradas. No rádio tocava Lover you should’ve
come over, e ela, depois de ouvi-la atentamente, quase que por inteira, me perguntou:
_Onde você descobre essas músicas?
_Assim que eles as terminam, ligam pra mim. Respondi e, logo depois sorri com o canto da boca.
Ela gargalhou e o aparelho em seus dentes brilhou no quase escuro
acolhedor do carro, aumentando-lhe ainda mais a aura de menina.
Ela fazia curvas, seguia em frente, parava, seguia de novo e passava a
marcha com a mesma precisão que usava o batom ou pintava seus olhos
diante do espelho. Eu a olhava atentamente: as unhas pintadas, o cuidado
do cabelo, a roupa que havia escolhido. Imaginei-a nessa rotina
eufórica do encontro, da entrega total, do atarefado anseio de impressionar
o homem que havia escolhido.
Eu ainda estava sob os efeitos
do voo e, portanto não me sentia totalmente compacto, pregado ao chão e,
quando queria buscar a certeza de que realmente estava ali, ao lado
dela, sentindo o perfume que eu conhecia muito bem e mais ainda o cheiro
dela que estava sob o perfume, sob a roupa, eu arpejava meus dedos no calorzinho
entre suas coxas.
Sempre que ela se desvencilhava da marcha,
logo trazia sua mão para cima da minha. Um gesto que dispensava toda e
qualquer palavra.
Chegamos a casa rasgando o silêncio da
pacata ruazinha. (!) A noite trepidou e balançou sem parar as estrelas
na estante do céu, até que o dia, ainda sonolento, assumiu o posto.
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