Espertos

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O frio e o fogo.

         A minha mão entre suas pernas, vez ou outra, sutilmente erguida pela necessidade do uso da embreagem e do freio, era a única coisa realmente aquecida no furor do frio daquela cidade melancólica e de pestanas quase sempre semi cerradas. No rádio tocava Lover you should’ve come over, e ela, depois de ouvi-la atentamente, quase que por inteira, me perguntou:

_Onde você descobre essas músicas?
_Assim que eles as terminam, ligam pra mim. Respondi e, logo depois sorri com o canto da boca. 

Ela gargalhou e o aparelho em seus dentes brilhou no quase escuro acolhedor do carro, aumentando-lhe ainda mais a aura de menina.


Ela fazia curvas, seguia em frente, parava, seguia de novo e passava a marcha com a mesma precisão que usava o batom ou pintava seus olhos diante do espelho. Eu a olhava atentamente: as unhas pintadas, o cuidado do cabelo, a roupa que havia escolhido. Imaginei-a nessa rotina eufórica do encontro, da entrega total, do atarefado anseio de impressionar o homem que havia escolhido.

Eu ainda estava sob os efeitos do voo e, portanto não me sentia totalmente compacto, pregado ao chão e, quando queria buscar a certeza de que realmente estava ali, ao lado dela, sentindo o perfume que eu conhecia muito bem e mais ainda o cheiro dela que estava sob o perfume, sob a roupa, eu arpejava meus dedos no calorzinho entre suas coxas.

Sempre que ela se desvencilhava da marcha, logo trazia sua mão para cima da minha. Um gesto que dispensava toda e qualquer palavra.

Chegamos a casa rasgando o silêncio da pacata ruazinha. (!) A noite trepidou e balançou sem parar as estrelas na estante do céu, até que o dia, ainda sonolento, assumiu o posto.

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