Espertos

sábado, 8 de dezembro de 2012

A tristeza tem o cheiro de pastéis fritos.

Agarrado a sua saia como se buscasse uma razão para minha existência, eu a olhava mordendo as lágrimas com os olhos.
Uma tarde oca, sem endereço, manca, insistia em caminhar para o lugar nenhum.
Meu pai chegava horas e horas depois e derramava seu desespero líquido por toda casa.
Ela contraía seus lábios finos na tentativa de evitar lidar com palavras mai
ores do que ela mesma. O óleo quente que vez em quando pingava em meus cabelos, rosto, coração, não doíam tanto quanto aquele silêncio fervendo em sua alma.
Meu pai andava de um lado para o outro como a tentar preencher o vazio absurdo de vazio.
Ela continuava mergulhando aquela coisa de alumínio doído, torto de existência que, um a um, ia tirando os pequeninos ódios amarelos fritos, que horas depois, os comeríamos frios numa noite sem nome.

(Reynaldo Bessa)

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