Eu seguia meu costumeiro caminho. Caminho que sabe mais de mim que eu a ele. Notei um tumulto à frente: alguns policiais tentando se aproximar de um homem sobre o parapeito do viaduto da lua.
_Não se aproximem. Não cheguem
mais perto. Não, nem pensem.
Um pandemônio num pedacinho da
noite. Observei isso durante alguns poucos minutos. Logo retomei o meu caminho
e aproveitei para acender uma cigarrilha.
_ei você ai.
Continuei andando. A coisa veio
ainda mais forte.
_ei, ei você ai
Dessa vez senti como se o grito
tivesse tocado o meu ombro. Virei-me e notei logo de cara que todos me
observavam.
_o que você esta fumando? Que
cheiro é esse?
_cigarrilhas – respondi
_posso fumar uma? – perguntou-me
_claro – respondi
_mas não tente se aproximar de
mim. – ele reforçou
_não vou me aproximar. Já tenho
os meus problemas.
Joguei duas cigarrilhas de onde
eu estava. Depois joguei o isqueiro. O observei. Deu cinco longos tragos,
olhou-me, depois se virou para os inquietos policiais e gritou:
_fiquem onde estão. Se tentarem
alguma brincadeirinha, eu-pu-lo-des-sa mer-da.
Continuei fumando e já pensava em
sair.
_ei, chega ai
_não – respondi
_como não?
_não
_ei, não percebe o que ta acontecendo
aqui?
_sim, claro
_e ai?
_e ai, nada. Problema seu.
_se você não vier até aqui agora,
eu vou saltar dessa porra.
Eu congelei minha cigarrilha
entre os dedos por alguns segundos, olhei os policiais e todos, quase que ao
mesmo tempo jogaram o pescoço para o lado em direção ao infeliz. Dei o último
trago. E perguntei:
_por que eu?
_sem perguntas – respondeu
_ok – respondi, já indo a sua
direção.
Contou-me coisas. Muitas coisas.
Algo sobre tentar manter uma bolinha de chumbo sobre uma película muito fina.
Falou-me sobre filhos, empregos, passado... Disse que estava cheio de problemas. Pensei em lhe dizer que todos tinham muitos problemas e que nem por isso estavam
tentando resolvê-los com uma grande queda. Pra que cair duas vezes na vida se
nascer já é uma queda muito forte? Mas não lhe disse isso, só pensei. Apenas acrescentei um:
_Entendo
Ficamos em silêncio. Fumamos
outras cigarrilhas. Ele conversava, mas não tirava os olhos dos policiais.
Outros carros haviam chegado. Bombeiro, ambulância, emergência... Uma balbúrdia.
E eu que queria apenas seguir o meu costumeiro caminho e chegar até a adeguinha
logo ali e tomar meu costumeiro vinho. Notei que todos agora me olhavam como se
eu tivesse que salvar o mundo. Até confesso que por um átimo quase acreditei
nisso. Fumava ao lado do infeliz. Sentia seu hálito, o cheiro do seu corpo
agitado. Provavelmente desde que o dia começou. Senti por diversas vezes seu
ombro tocar o meu. Esperavam algo de mim e eu sabia disso. Imaginei-me abraçado
a ele, rolando pelo chão, ele em desespero, olhando-me com aqueles olhos ainda
mais tristes. Imaginei-me ouvindo seus gritos que me seguiriam pro resto da
minha vida. Pensei, confesso que pensei. Vi-me também despencando com ele
daquele parapeito sombrio. Eu poderia levar desvantagem. Ninguém sabe a força
que alguém realmente possui quando quer morrer. Conhece-se só a força de quem
quer viver.
_qual é o teu nome? – perguntou-me
de supetão.
Depois de alguns segundos, disse-lhe
meu nome e ele logo em seguida disse-me o dele e me pediu que apertasse a sua mão. Passei a cigarrilha para a outra mão e atendi ao seu pedido. Depois, silencio de novo. De repente
ele já não mais estava ali. Foi como se simplesmente tivesse se evaporado,
desaparecido. Ouvi o impacto. Afastei-me. Uma multidão veio ao meu
encontro. A maioria dela se debruçou sobre o parapeito para olhar lá embaixo. O tumulto do tumulto. Os policiais
vieram em minha direção e me bombardearam de perguntas:
_por que não o segurou? Por que
não o agarrou? Por que não isso, por que não aquilo?
Não respondi. Tomei o meu caminho de casa e enquanto acendia outra cigarrilha pensei: carregar uma morte não é tão difícil, difícil mesmo é arrastar uma vida.
Não respondi. Tomei o meu caminho de casa e enquanto acendia outra cigarrilha pensei: carregar uma morte não é tão difícil, difícil mesmo é arrastar uma vida.
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