Espertos

sábado, 8 de dezembro de 2012

O viaduto da Lua


      Eu seguia meu costumeiro caminho. Caminho que sabe mais de mim que eu a ele. Notei um tumulto à frente: alguns policiais tentando se aproximar de um homem sobre o parapeito do viaduto da lua.

_Não se aproximem. Não cheguem mais perto. Não, nem pensem.
Um pandemônio num pedacinho da noite. Observei isso durante alguns poucos minutos. Logo retomei o meu caminho e aproveitei para acender uma cigarrilha.

_ei você ai.

Continuei andando. A coisa veio ainda mais forte.

_ei, ei você ai 

Dessa vez senti como se o grito tivesse tocado o meu ombro. Virei-me e notei logo de cara que todos me observavam.

_o que você esta fumando? Que cheiro é esse?

_cigarrilhas – respondi

_posso fumar uma? – perguntou-me

_claro – respondi

_mas não tente se aproximar de mim. – ele reforçou

_não vou me aproximar. Já tenho os meus problemas.

Joguei duas cigarrilhas de onde eu estava. Depois joguei o isqueiro. O observei. Deu cinco longos tragos, olhou-me, depois se virou para os inquietos policiais e gritou:

_fiquem onde estão. Se tentarem alguma brincadeirinha, eu-pu-lo-des-sa mer-da. 

Continuei fumando e já pensava em sair.

_ei, chega ai

_não – respondi

_como não?

_não

_ei, não percebe o que ta acontecendo aqui?

_sim, claro

_e ai?

_e ai, nada. Problema seu.

_se você não vier até aqui agora, eu vou saltar dessa porra.

Eu congelei minha cigarrilha entre os dedos por alguns segundos, olhei os policiais e todos, quase que ao mesmo tempo jogaram o pescoço para o lado em direção ao infeliz. Dei o último trago. E perguntei:

_por que eu?

_sem perguntas – respondeu

_ok – respondi, já indo a sua direção.

Contou-me coisas. Muitas coisas. Algo sobre tentar manter uma bolinha de chumbo sobre uma película muito fina. Falou-me sobre filhos, empregos, passado... Disse que estava cheio de problemas. Pensei em lhe dizer que todos tinham muitos problemas e que nem por isso estavam tentando resolvê-los com uma grande queda. Pra que cair duas vezes na vida se nascer já é uma queda muito forte? Mas não lhe disse isso, só pensei. Apenas acrescentei um:

_Entendo

Ficamos em silêncio. Fumamos outras cigarrilhas. Ele conversava, mas não tirava os olhos dos policiais. Outros carros haviam chegado. Bombeiro, ambulância, emergência... Uma balbúrdia. E eu que queria apenas seguir o meu costumeiro caminho e chegar até a adeguinha logo ali e tomar meu costumeiro vinho. Notei que todos agora me olhavam como se eu tivesse que salvar o mundo. Até confesso que por um átimo quase acreditei nisso. Fumava ao lado do infeliz. Sentia seu hálito, o cheiro do seu corpo agitado. Provavelmente desde que o dia começou. Senti por diversas vezes seu ombro tocar o meu. Esperavam algo de mim e eu sabia disso. Imaginei-me abraçado a ele, rolando pelo chão, ele em desespero, olhando-me com aqueles olhos ainda mais tristes. Imaginei-me ouvindo seus gritos que me seguiriam pro resto da minha vida. Pensei, confesso que pensei. Vi-me também despencando com ele daquele parapeito sombrio. Eu poderia levar desvantagem. Ninguém sabe a força que alguém realmente possui quando quer morrer. Conhece-se só a força de quem quer viver. 

_qual é o teu nome? – perguntou-me de supetão.

Depois de alguns segundos, disse-lhe meu nome e ele logo em seguida disse-me o dele e me pediu que apertasse a sua mão. Passei a cigarrilha para a outra mão e atendi ao seu pedido. Depois, silencio de novo. De repente ele já não mais estava ali. Foi como se simplesmente tivesse se evaporado, desaparecido. Ouvi o impacto. Afastei-me. Uma multidão veio ao meu encontro. A maioria dela se debruçou sobre o parapeito para olhar lá embaixo. O tumulto do tumulto. Os policiais vieram em minha direção e me bombardearam de perguntas:

_por que não o segurou? Por que não o agarrou? Por que não isso, por que não aquilo?

Não respondi. Tomei o meu caminho de casa e enquanto acendia outra cigarrilha pensei: carregar uma morte não é tão difícil, difícil mesmo é arrastar uma vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário