Espertos

quinta-feira, 6 de junho de 2013

     Do longo tempo que passei na Europa – minha fuga geográfica – apesar dos vislumbres, minha única vontade era voltar para o meu país. Uma música me acompanhou como uma oração ou um chute na bunda. Tanto faz. Morei boa parte do tempo em Paris, e depois resolvi ir atrás de confusão. Afinal de contas os conflitos só mudam – quando muito – de código de barra: em qualquer lugar do mundo os homens querem beber, e depois disso querem brigar ou chorar no ombro de um desconhecido ou de uma mulher que não lhes quer, as mulheres querem ser amadas, e choram quando isso não acontece. Em qualquer esquina de qualquer país a solidão dorme sob alguma marquise. De Londres fui até Dublin. Queria folhear aquelas famosas ruas e quem sabe até encontrar Joyce em algum pub escuro e cheirando a vômito. Poderia até ser seu sósia. Mas não o encontrei. Nem Joyce nem o seu sósia. Na verdade me empanturrei de Guiness’s. No começo, ao tocar a boca da tulipa transbordante, senti como se beijasse os lábios de uma velha de cem anos ou mais, mas depois tudo mudou. Com a Guiness é preciso beijar os lábios mordidos pelo tempo para só depois lamber os poros dourados da alegria. Voltei a Paris com folhas despencando e rindo sob as calçadas. Eu estava sozinho e forte como o exército de um homem só. Ela, e sempre Ela vibrava em meu coração como uma peça solta numa máquina de lata; meu coração não passava de uma boneca de pano sob a chuva. Um pé gordo dentro de um sapato pequeno demais, apertado demais. Doendo demais. Quando a música disparou em meu ipod e eu vi aquelas folhas marrons, e aquele vento assanhou meus cabelos, e aquela tarde caiu como um véu sobre o corpo de uma bela noiva e eu senti o arder de minha cigarrilha em meu peito, sorri, e só depois pude perceber que era o sorriso do esquecimento...o que eu faria agora?...essa pergunta despencou do abismo da nova descoberta. Até então eu era apenas uma lembrança....

(Reynaldo Bessa - Crônicas Agudas)

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