Do
longo tempo que passei na Europa – minha fuga geográfica – apesar dos
vislumbres, minha única vontade era voltar para o meu país. Uma música
me acompanhou como uma oração ou um chute na bunda. Tanto faz. Morei boa
parte do tempo em Paris, e depois resolvi ir atrás de confusão. Afinal
de contas os conflitos só mudam – quando muito – de código de barra: em
qualquer lugar do mundo os homens querem
beber, e depois disso querem brigar ou chorar no ombro de um
desconhecido ou de uma mulher que não lhes quer, as mulheres querem ser
amadas, e choram quando isso não acontece. Em qualquer esquina de
qualquer país a solidão dorme sob alguma marquise. De Londres fui até
Dublin. Queria folhear aquelas famosas ruas e quem sabe até encontrar
Joyce em algum pub escuro e cheirando a vômito. Poderia até ser seu
sósia. Mas não o encontrei. Nem Joyce nem o seu sósia. Na verdade me
empanturrei de Guiness’s. No começo, ao tocar a boca da tulipa
transbordante, senti como se beijasse os lábios de uma velha de cem anos
ou mais, mas depois tudo mudou. Com a Guiness é preciso beijar os
lábios mordidos pelo tempo para só depois lamber os poros dourados da
alegria. Voltei a Paris com folhas despencando e rindo sob as calçadas.
Eu estava sozinho e forte como o exército de um homem só. Ela, e sempre
Ela vibrava em meu coração como uma peça solta numa máquina de lata; meu
coração não passava de uma boneca de pano sob a chuva. Um pé gordo
dentro de um sapato pequeno demais, apertado demais. Doendo demais.
Quando a música disparou em meu ipod e eu vi aquelas folhas marrons, e
aquele vento assanhou meus cabelos, e aquela tarde caiu como um véu
sobre o corpo de uma bela noiva e eu senti o arder de minha cigarrilha
em meu peito, sorri, e só depois pude perceber que era o sorriso do
esquecimento...o que eu faria agora?...essa pergunta despencou do abismo
da nova descoberta. Até então eu era apenas uma lembrança....
(Reynaldo Bessa - Crônicas Agudas)
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