Quando
cheguei na estação de trem de Marseille, mochila nas costas e muito
cansado, rodei um pouco para guardar as últimas imagens da cidade em que
Rimbaud havia amputado a perna. Olhei o vai e vem, os abraços, as
despedidas, os choros, as angústias, o grito das crianças que um dia
também iriam chorar numa estação, mas que agora só se preocupavam em
construir castelos coloridos no ar. Olhei a correria
e pensei que a alma fala um idioma só e que não é preciso uma pronúncia
perfeita para ser compreendido. Basta um olhar e pronto. Eu estava
mesmo muito cansado. Já estava viajando há muito tempo. Quando cheguei
em Marseille logo de cara odiei a cidadezinha. Cheguei faminto e era um
domingo e não havia nada aberto, nada vendendo nada. Então fui dormir
alimentado apenas por um belo e melancólico por do sol sobre o mar se
espreguiçando ao longe. Meu francês já estava afiadíssimo e me sentia em
casa apesar de querer ir embora. Pra onde? não sabia. Queria apenas ir.
Ela, e Ela pregava sem pena em meu coração um prego cabral de distância
com o martelo pesado da incerteza. Até onde mais eu poderia ir para
ficar longe desse passado? Quanto mais eu deveria fugir para que pudesse
me esconder de mim mesmo? Ao comer aquele "pain au chocolat" tive a
impressão de sentir os lábios Dela. Pensei ter ouvido sua voz. "Pain au
lágrimas" Talvez. Meu trem chegaria logo e em breve eu estaria em outro
país, outra cidade e eu diferente de mim e ainda assim eu mesmo. Entrei
numa loja da Virgin e pus pra tocar um cd de um novo cantor francês que em breve
faria uma grande besteira com sua música e ficaria mundialmente famoso.
Disco lindo (só o primeiro). Pus os fones e pelas frinchas das janelas da loja olhei a igrejinha sobre o morro ao longe e me pareceu que ela também
chorava....
(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)
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