Espertos

sábado, 8 de junho de 2013

Quando cheguei na estação de trem de Marseille, mochila nas costas e muito cansado, rodei um pouco para guardar as últimas imagens da cidade em que Rimbaud havia amputado a perna. Olhei o vai e vem, os abraços, as despedidas, os choros, as angústias, o grito das crianças que um dia também iriam chorar numa estação, mas que agora só se preocupavam em construir castelos coloridos no ar. Olhei a correria e pensei que a alma fala um idioma só e que não é preciso uma pronúncia perfeita para ser compreendido. Basta um olhar e pronto. Eu estava mesmo muito cansado. Já estava viajando há muito tempo. Quando cheguei em Marseille logo de cara odiei a cidadezinha. Cheguei faminto e era um domingo e não havia nada aberto, nada vendendo nada. Então fui dormir alimentado apenas por um belo e melancólico por do sol sobre o mar se espreguiçando ao longe. Meu francês já estava afiadíssimo e me sentia em casa apesar de querer ir embora. Pra onde? não sabia. Queria apenas ir. Ela, e Ela pregava sem pena em meu coração um prego cabral de distância com o martelo pesado da incerteza. Até onde mais eu poderia ir para ficar longe desse passado? Quanto mais eu deveria fugir para que pudesse me esconder de mim mesmo? Ao comer aquele "pain au chocolat" tive a impressão de sentir os lábios Dela. Pensei ter ouvido sua voz. "Pain au lágrimas" Talvez. Meu trem chegaria logo e em breve eu estaria em outro país, outra cidade e eu diferente de mim e ainda assim eu mesmo. Entrei numa loja da Virgin e pus pra tocar um cd de um novo cantor francês que em breve faria uma grande besteira com sua música e ficaria mundialmente famoso. Disco lindo (só o primeiro). Pus os fones e pelas frinchas das janelas da loja olhei a igrejinha sobre o morro ao longe e me pareceu que ela também chorava....


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)

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