Espertos

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ela entra. Pisa firme como o fim do mundo. De vestido preto, justo, e com armadilhas no canto dos lábios carnudos e com inúmeros beijos alheios e esquecidos em cada vinco, me sorri. Joga a bolsinha brilhante e repleta de estrelas decaídas para algum dos precipícios da casa. Depois enrosca-se em meu pescoço, e de leve, com unhas pintadas para as guerras noturnas e aladas, o arranha. Sorri ainda mais armadilhas tiradas das cacholas dos infelizes . Joga-se na cama - que agora lhe pertence - e cruza as coxas: brancas, roliças, tenras: o preto no branco como um abraço assassino. Olha-me como se me escaneasse - um sorriso sacana fingindo intimidade - . Em seus olhos digitais: duas horas piscam em contagem regressiva: é o tempo da solidão que ecoará para o resto da minha noite vazia.


(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)

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