Ela
entra. Pisa firme como o fim do mundo. De vestido preto, justo, e com
armadilhas no canto dos lábios carnudos e com inúmeros beijos alheios e
esquecidos em cada vinco, me sorri. Joga a bolsinha brilhante e repleta
de estrelas decaídas para algum dos precipícios da casa. Depois
enrosca-se em meu pescoço, e de leve, com unhas pintadas para as
guerras noturnas e aladas, o arranha. Sorri ainda
mais armadilhas tiradas das cacholas dos infelizes . Joga-se na cama -
que agora lhe pertence - e cruza as coxas: brancas, roliças, tenras: o preto no
branco como um abraço assassino. Olha-me como se me escaneasse - um
sorriso sacana fingindo intimidade - . Em seus olhos digitais: duas
horas piscam em contagem regressiva: é o tempo da solidão que ecoará
para o resto da minha noite vazia.
(Reynaldo Bessa - Crônicas agudas)
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