Espertos

sábado, 13 de julho de 2013

Malicioso esmero...




Estava sentada como se fosse viver ali toda a sua existência. Levava o garfo à boca, como se com um batom, pintasse seus lábios carnudos, de vermelho doído. Mastigava, bebericava sua coca-cola-gelo-e-limão, dava uma olhadela no ambiente com seus olhinhos saltitantes – gazelas cor de mel - e conferia o celular. Sempre isso. Depois de uma garfada, eu já ansiava por outra. Deslizava seus dedinhos – talvez cheirando a frango – sobre o visor do celular como quem prepara uma delicada fórmula mágica. Em suas costas, vale reforçar: eu poderia erguer um reino encantado. Torneadas com o malicioso esmero. Sobre elas, cabelos longos, e ainda adormecidos, desgrenhados, me fazendo pensar em seus lençóis sobre sua cama ainda desfeita. Uma jaqueta jeans, jogada sobre o corpo, com a desenvoltura de quem está vestindo uma toalha de banho. Uma blusinha amarela, surrada, sob a jaqueta. Alcinhas do sutiã gargalhando sobre os ombros andinos. - a típica preguiça sabática, pensei - Com os olhos da intuição, penso, percebeu a minha presença – ou seria a minha ausência? – e meus olhos telescópicos, sedentos, atrás dela. Levantou-se como se fosse fazer um cumprimento a alguém invisível a sua frente, puxou a calça jeans apertada – também... - e nisso deu aquela típica reboladinha que as mulheres gostam tanto quando querem erguer a calça jeans incumbida da difícil tarefa de manter curvas tortuosas em seu devido lugar. Depois, como a princesa que era, voltou ao seu trono. Deu metade de uma olhadinha para trás – para mim? – e nisso desceu a blusinha amarela para tentar cobrir, o que na verdade, deveria mostrar aos quatro cantos. A blusa puxada sem piedade me remeteu ao Grito, de Munch. Ainda mastigando, cruzou as coxas – o pezinho frenético em ação. Percebi uma pulseirinha microbiana em sua canelinha de Vênus: as cores da Jamaica já iam longe, devido a tantos banhos, praias, chuvas e outras coisas mais... Por um momento quis encontrar algo nela que pudesse transformar toda aquela beleza em pó. – essas coisas doem, sabem? – mas, enquanto mais eu a olhava, mais me sentia como um inseto preso em uma teia. Ficar parado também, nem pensar. Levitar, talvez. Arrumou os talheres – juntinhos. - Seria uma dica? – depois, levantou-se como se fosse dançar, olhou em volta – aquilo seria um biquinho? – Pagou sua conta. Para o garçom, como gorjeta, deixou seu sorriso tímido e algumas palavras que não passaram de seus dentinhos brancos. Para mim, apenas a sua ausência perfumada.

(Reynaldo Bessa)

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