quando cortaram minha pipa,
você foi buscá-la e a trouxe pra mim.
quando meu zíper emperrava, você dizia: "espera" e o fazia funcionar.
quando a ponta do meu lápis quebrava, você a fazia e eu voltava às minhas garatujas.
quando os barulhos da noite saltitavam no jardim, você dizia que eram cavalinhos de cristal protegendo a casa.
quando os trovões arranhavam o céu e eu te olhava com meus olhos de grandes
bolas de gude, você dizia que era Deus, de novo mudando de casa. E sobre
os raios? Eu logo perguntava. E você dizia que era Deus fotografando
seus vizinhos para nunca os esquecer.
quando minhas espinhas viraram
meu campo de batalha, você disse que se eu ficasse menos tempo no
banheiro, logo elas iriam desaparecer
quando eu não consegui aquele emprego, você disse que eu era melhor do que ele.
quando eu a quis colocar dentro do meu coração, e ela não quis
entrar, e que de tão apertado achei que ele fosse sumir, você passou a
noite toda comigo, tomando cervejas e indo ao banheiro pra chorar, que eu
sei.
e quando nosso pai, de tanto ir (se acostumou a isso), e foi-se de vez, você disse que
ele foi na frente pra arrumar a nossa nova casa...(a nossa, enfim, casa
própria)
e quando eu saí de casa, você, com seus olhos de chuva, disse, "você ja é um homem.
Hein? Aí você se foi de vez....
Há tantos barulhos no jardim
há tantos trovões e raios, e
há também "ela"
coloquei algumas cervejas na geladeira...
Maninho, maninho, eu tenho tantas perguntas ainda, eu tenho ainda mais,
espera, eu tenho um milhão delas, maninho...milhões delas
(Reynaldo Bessa)
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