_Minha mãe está meia triste.
_Meio triste, seu burro, meia não existe. Por um acaso, sua mãe está metade triste e metade feliz?
_Sim. Ela está exatamente assim. Metade dela sorri e a outra metade,
não. Já contei piada, plantei bananeira, soltei pum, nada. Só a outra
metade sorri. Nem percebe que não foi pra ela que eu fiz tudo isso. Sabe
aquelas máscaras que têm lá na nossa escola: uma com cara feliz e a outra com cara de mau?
_ Tragédia e comédia...
_isso, pois é só cortar metade de uma e metade da outra e depois juntar
as duas metades: isso é minha mãe. Mas já tô me acostumando com duas
mães, quer dizer, duas metades de uma mãe. Eu converso muito com a
metade triste. Ela me ouve e não quer só falar, falar e falar... sabe? Mas a metade que gosta de falar e falar, sempre entra na conversa.
Sempre nos interrompe. Acho que no fundo ela fica meio atrapalhada
porque quando faço uma pergunta para minha mãe triste, minha mãe
sorridente sempre responde. Quando conto uma piada para mamãe-triste, a
mamãe-feliz sempre ri primeiro. É estranho. Minha mãe triste não me
cobra o dever de casa, não quer ver minhas notas, não me manda escovar
os dentes, tomar banho. Só a metade mamãe-sorriso que faz isso. Ah,
gosto da mamãe-tristeza.
_E quando e como isso aconteceu com sua mãe?
_Ah, foi um pouco tenso. Estávamos almoçando, aí minha mãe parou de
comer, ficou em silêncio – enquanto isso eu fazia uma torre do meu purê –
e depois correu para o quarto. Meu pai e minhas irmãs correram logo depois, e pouco
antes de fecharem o quarto, me disseram para ficar do lado de fora
brincando com o Fred. Ouvi gritos. Choro. O Fred ficou meio agitado.
Metade dele ficou comigo e a outra metade ficou lá dentro do quarto.
Depois de um tempão, eles voltaram, menos a minha mãe. Aí, veio uma
ambulância e levou a minha mãe. A casa ficou um pouco vazia, meio
abandonada. Toda silenciosa. Depois a ambulância voltou e trouxe minha
mãe de volta. E só depois de alguns dias pude perceber que eu tinha duas
mães. Saiu uma e voltaram duas. Pessoas podem já nascer adultas ou só
bebês?
_Acho que só bebês, mas têm uns caras fazendo uns experimentos que sei lá viu...
_É?
_Unhum.
_Na verdade, às vezes eu gosto disso tudo, porque minha mãe agora só
fica metade brava comigo, mas às vezes, não gosto porque sinto seus
carinhos só pela metade. Metade da minha mãe se mexe, grita com meu pai,
arruma a casa, chama o Fred, e a outra metade, nem tchan. Nadinha. Mas
eu gosto dela. Ela aceita tudo. Toda semana o médico vai lá em casa e
examina ela. Depois de conversar muito com as duas metades, conversa com
meu pai, minhas irmãs, e só muito depois, apoiando-se nos joelhos,
espana meus cabelos, e com uma voz diferente, me diz que infelizmente
não pode curar minha mãe, mas que fará tudo pra deixar ela...
_Caraca, meu.... "Deixá-la..."
_É, deixá-la bem. Toda animada. Mas ele nem me pergunta se eu quero
mesmo isso. Eu não quero que minha mãezinha-triste vá embora. Gosto
dela. Gosto das duas metades.
_E isso que sua mãe tem, como chama?
_Hum, sei não. Sempre que pergunto o que minha mãe tem, o meu pai vem
com meias verdades... ih, agora fiquei um pouco perdido: é meia verdade
ou meio verdade? Porque meia verdade é metade verdade e metade mentira e
meio verdade é um pouco mentira também...
_Xi, agora você me pegou. Sei não. Vou ver depois e te digo...
_ Tá. Então. O médico disse várias vezes o que minha mãe tem, mas é uma
palavra meio esquisita, sabe? Um pouco complicada de se falar. É uma
palavra que parece não sorrir nunca. Como se eu não pudesse segurá-la em
minhas mãos, entende? Uma palavra que parece maior que minha boca. Sabe
aqueles trava-línguas?
_Sim... eu...
_Pois é... Não consegui guardar...
_E pega, sabe dizer?
_Acho que não, porque meu pai continua inteiramente bravo, minhas irmãs
completamente bisbilhoteiras, e o Fred totalmente folgado. E eu, sei
lá... acho que não pega. Mas eu adoraria que fosse contagiosa, pois
assim o meu pai ficaria como a mamãe e não inteiramente bravo.
_É... Preciso ir. Hoje à noite o meu pai vai comprar pizzas.
_Preciso ir também. Ih, agora fiquei confuso de novo. Minha mãe inteira
gostava de pizza metade portuguesa e metade escarola. Agora que ela
está dividida, preciso perguntar para as metades, de quais metades elas
gostam... Será que elas comem uma pizza inteira?
(Reynaldo Bessa)
Nenhum comentário:
Postar um comentário