Espertos

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Meia triste

_Minha mãe está meia triste.
_Meio triste, seu burro, meia não existe. Por um acaso, sua mãe está metade triste e metade feliz?
_Sim. Ela está exatamente assim. Metade dela sorri e a outra metade, não. Já contei piada, plantei bananeira, soltei pum, nada. Só a outra metade sorri. Nem percebe que não foi pra ela que eu fiz tudo isso. Sabe aquelas máscaras que têm lá na nossa escola: uma com cara feliz e a outra com cara de mau?
_ Tragédia e comédia...
_isso, pois é só cortar metade de uma e metade da outra e depois juntar as duas metades: isso é minha mãe. Mas já tô me acostumando com duas mães, quer dizer, duas metades de uma mãe. Eu converso muito com a metade triste. Ela me ouve e não quer só falar, falar e falar... sabe? Mas a metade que gosta de falar e falar, sempre entra na conversa. Sempre nos interrompe. Acho que no fundo ela fica meio atrapalhada porque quando faço uma pergunta para minha mãe triste, minha mãe sorridente sempre responde. Quando conto uma piada para mamãe-triste, a mamãe-feliz sempre ri primeiro. É estranho. Minha mãe triste não me cobra o dever de casa, não quer ver minhas notas, não me manda escovar os dentes, tomar banho. Só a metade mamãe-sorriso que faz isso. Ah, gosto da mamãe-tristeza.
_E quando e como isso aconteceu com sua mãe?
_Ah, foi um pouco tenso. Estávamos almoçando, aí minha mãe parou de comer, ficou em silêncio – enquanto isso eu fazia uma torre do meu purê – e depois correu para o quarto. Meu pai e minhas irmãs correram logo depois, e pouco antes de fecharem o quarto, me disseram para ficar do lado de fora brincando com o Fred. Ouvi gritos. Choro. O Fred ficou meio agitado. Metade dele ficou comigo e a outra metade ficou lá dentro do quarto. Depois de um tempão, eles voltaram, menos a minha mãe. Aí, veio uma ambulância e levou a minha mãe. A casa ficou um pouco vazia, meio abandonada. Toda silenciosa. Depois a ambulância voltou e trouxe minha mãe de volta. E só depois de alguns dias pude perceber que eu tinha duas mães. Saiu uma e voltaram duas. Pessoas podem já nascer adultas ou só bebês?
_Acho que só bebês, mas têm uns caras fazendo uns experimentos que sei lá viu...
_É?
_Unhum.
_Na verdade, às vezes eu gosto disso tudo, porque minha mãe agora só fica metade brava comigo, mas às vezes, não gosto porque sinto seus carinhos só pela metade. Metade da minha mãe se mexe, grita com meu pai, arruma a casa, chama o Fred, e a outra metade, nem tchan. Nadinha. Mas eu gosto dela. Ela aceita tudo. Toda semana o médico vai lá em casa e examina ela. Depois de conversar muito com as duas metades, conversa com meu pai, minhas irmãs, e só muito depois, apoiando-se nos joelhos, espana meus cabelos, e com uma voz diferente, me diz que infelizmente não pode curar minha mãe, mas que fará tudo pra deixar ela...
_Caraca, meu.... "Deixá-la..."
_É, deixá-la bem. Toda animada. Mas ele nem me pergunta se eu quero mesmo isso. Eu não quero que minha mãezinha-triste vá embora. Gosto dela. Gosto das duas metades.
_E isso que sua mãe tem, como chama?
_Hum, sei não. Sempre que pergunto o que minha mãe tem, o meu pai vem com meias verdades... ih, agora fiquei um pouco perdido: é meia verdade ou meio verdade? Porque meia verdade é metade verdade e metade mentira e meio verdade é um pouco mentira também...
_Xi, agora você me pegou. Sei não. Vou ver depois e te digo...
_ Tá. Então. O médico disse várias vezes o que minha mãe tem, mas é uma palavra meio esquisita, sabe? Um pouco complicada de se falar. É uma palavra que parece não sorrir nunca. Como se eu não pudesse segurá-la em minhas mãos, entende? Uma palavra que parece maior que minha boca. Sabe aqueles trava-línguas?
_Sim... eu...
_Pois é... Não consegui guardar...
_E pega, sabe dizer?
_Acho que não, porque meu pai continua inteiramente bravo, minhas irmãs completamente bisbilhoteiras, e o Fred totalmente folgado. E eu, sei lá... acho que não pega. Mas eu adoraria que fosse contagiosa, pois assim o meu pai ficaria como a mamãe e não inteiramente bravo.
_É... Preciso ir. Hoje à noite o meu pai vai comprar pizzas.
_Preciso ir também. Ih, agora fiquei confuso de novo. Minha mãe inteira gostava de pizza metade portuguesa e metade escarola. Agora que ela está dividida, preciso perguntar para as metades, de quais metades elas gostam... Será que elas comem uma pizza inteira?

(Reynaldo Bessa)

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