Adoraria sentir o cheiro de cera e cozido de carne, escorregar no
assoalho liso e brilhoso e prender o choro, para mostrar ao coleguinha
que engole o riso, que sou ainda mais forte. Gostaria de ouvir alguém gritar lá
da cozinha, me chamando para o lanche, e me dizer que só vou comer depois de
lavar as mãos. E eu fingiria lavar as mãos porque não gosto da
sensação que a água deixa em meus dedos. Adoraria também sentir
o cheiro de bolo vindo do formo. Comeria esse bolo ainda quente e
ouviria alguém me dizer: “menino, vai te dar dor de barriga. E eu, com certeza, ficaria
horas no banheiro com as duas mãos pressionando o bucho e gemendo e
xingando o bolo. Amaria beijar a menina na boca de novo e depois não saber o que
dizer. Olhá-la com aquela cara de quem acabou de roubar frutas do quintal do vizinho. Beijá-la, beijá-la e depois sorrir e me perguntar, e agora, o que
faço depois disso? Queria chegar da escola e encontrar meu lanche me
esperando no forno: pão tomate e ovo, e também adoraria não encontrá-lo e
depois descobrir que foi o meu irmão que o comeu, só pra ouvir dele: “vai
crescer, moleque”. Queria tomar de novo meu primeiro porre e ser levado
pelos amigos que se divertem da ocasião e principalmente com o que eu
digo. Poderia fumar meu primeiro cigarro de novo só para mostrar ao meu
pai que eu já sou um homem, apesar de não saber ainda o que isso significa . Amaria beber café com leite pelando e queimar a língua e os dedos, tomar banho de
chuva com o uniforme da escola e ter a orelha puxada por minha mãe.
Queria sentir ciúmes da namoradinha, mas adoraria que ela sentisse ainda mais.
Queria que ela dissesse que se mata por mim se eu quiser. Adoraria abraçá-la como se
eu fosse o seu dono e depois olhar para os rivais com olhos de gavião
gripado. Poderia sentir o frio na barriga pelo medo de não conseguir
terminar a minha prova do vestibular a tempo, sentiria medo de ser
o último a terminar. Queria de novo sentir o vento batendo em minhas
orelhas por terem raspado todo o meu cabelo. Mesmo me sentindo nu e horrível, teria de novo o prazer de mostrar que
essa careca significa vitória. Significa que eu sei das coisas,
significa que a gente fica feio assim porque existe um motivo maior.
Porque há uma grande possibilidade de sermos um novo Einstein, Darwin,
Newton, ou até mesmo um Bill Gates. A careca é o horrível e orelhudo
crachá da sabedoria. Mas também adoraria rezar todas as noites para que meus cabelos crescessem logo e eu deixasse de ser careca e escondesse minhas orelhas de
abano. Amaria sentir o prazer do primeiro emprego, do primeiro salário,
da primeira compra a prazo, da primeira moto, do primeiro carro.
Quem dera eu pudesse agora sentir de novo o nervosismo do nascimento
do meu primeiro filho, de vê-lo falar, andar, de sentir a primeira vez
que suas mãozinhas apertaram o meu dedo indicador: quem consegue
resistir a algo assim? Acordaria durante a noite com o choro dele e
diria para a moça linda ao lado, “agora é a sua vez”, quando na verdade é
a minha, e ouvir do outro lado da cama, “eu fui da ultima vez, agora é
você, sinto muito”. E me levantaria tropeçando nas coisas, em mim,
tentaria ligar a luz no botão da televisão (as tvs não tem mais botões)
entraria no banheiro, quando na verdade queria ir ao quarto do meu bebê. De novo ficaria ali, ajoelhado e dizendo: "o mundo que se exploda", Porque ali, ao lado daquele berço, é o melhor lugar do mundo. E ainda
dizer que eu acordaria bilhões de vezes só pra vê-lo limpinho,
alimentado e apertando o meu dedo indicador enquanto sorri como se me
dissesse, “não saia daí, se não eu choro de novo”. Adoraria, queria, poderia, amaria. E como
não poderia querer?
Poderia de novo perder aquele emprego de merda, e ouvir, Dela: “não se preocupe, tudo vai dar certo” (ah esse sentimento de esperança que com o tempo a vida deixa dançando sozinho) e algum dia foi diferente? Ouviria do meu pai, de novo e de novo - quando minha ansiedade e medos tomassem conta de mim – “deixe o dia de amanhã com o dia de amanhã. A vida cuida”. E algum dia foi diferente? Queria poder parar a um passo da sua partida definitiva. Queria que a ligação gelada e escura daquele dia fatídico fosse um trote, um trote sem graça, porque nada é mais sem graça do que a verdade. Gostaria de ter comprado aquela roupa para o casamento do meu irmão mais velho e não para sua partida definitiva logo após o meu pai ter aberto o portão celestial. (o que foi que eu disse aqui?) Gostaria, só gostaria porque as coisas são assim: verbos no futuro do pretérito...ou seja um passado que não passou e um futuro que talvez não virá....
Gostaria - e vou lutar por isso - sempre que eu comece a esquecer disso tudo - não por querer, mas por me deixar levar pelos movimentos das incertezas e inutilidades - esse cheiro de cera e cozido de carne, e o tombo no assoalho e o chamado para o lanche me alertem de que sem isso a vida não passa de um relógio de ponto. Podemos faltar ao trabalho, mas não a vida. Essa ávida ave.
(Reynaldo Bessa)
Nenhum comentário:
Postar um comentário