há dias que morro
há uma vida e tantas mortes
mortes a prazo
mortes
por diversas vezes o sol ergueu minhas pestanas de lona de circo em fim de temporada,
e por diversas vezes as ergueu.
houve um momento em que lhe pedi para deixar-me aqui, sob esse deserto efervescente.
as tardes tinham gosto de labaredas.
o mundo lá fora gritava meu nome, e eu muito de longe, o ouvia como o som de um trem que eu acabara de perder numa estação qualquer.
tive vontade de chamar por alguém que nem mais pode segurar sua caneca.
alguém que talvez já esqueceu o meu nome.
tive vontade de tantas vontades, menos o de ser eu ali, morrendo como uma folha sobre a calçada.
nessas horas há vontade de gritar, mas é quando não podemos.
há vontade de sussurrar, mas há sempre algo se sinistro no sussurro.
morri, há dias
e sei - será isso bom ou ruim? - que morrerei ainda diversas vezes.
(Reynaldo Bessa)
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