Espertos

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

É um clichê dizer que mais um homem perdeu a esperança. Ele não sabe ao certo como. Pensa que deve ter deixado caír do bolso traseiro. Sim, ainda assim um clichê, porque afinal de contas isso acontece todos os dias. Mas ele perdeu a esperança, clichê ou não. Talvez porque haja barulho demais no mundo. Os carros fazem barulhos, os aviões, os helicópteros, as construções (assassinas sempre) fazem barulhos, as ambulâncias fazem barulho duplo porque são carros e possuem sirenes. Os ônibus se arrastam e deixam barulhos pelas ruas e pessoas barulhentas pelos pontos. Há barulhos demais. Agora mesmo há um homem quebrando algo sobre sua cabeça. Quebrando o que um dia outro homem quebrou para consertar e quebrar novamente. E isso é sem fim. Se o personagem de Camus disse que matou devido ao sol, ao calor assassino, este homem pode dizer também que matará por causa do barulho. As buzinas fazem barulhos e elas vêm acopladas aos carros, que já disse, fazem barulho. Barulho, barulho. Parece que existe uma necessidade desvairada de se distrair a vida, de se calar o silêncio em carne viva. O silêncio que nos fará tapar os ouvidos. O silêncio que durará um minuto de eternidade.

(Reynaldo Bessa)

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