É um
clichê dizer que mais um homem perdeu a esperança. Ele não sabe ao certo
como. Pensa que deve ter deixado caír do bolso traseiro. Sim, ainda assim um
clichê, porque afinal de contas isso acontece todos os dias. Mas ele
perdeu a esperança, clichê ou não. Talvez porque haja barulho demais no
mundo. Os carros fazem barulhos, os aviões, os helicópteros, as
construções (assassinas sempre) fazem barulhos, as ambulâncias fazem
barulho duplo porque são carros e possuem sirenes. Os ônibus se
arrastam e deixam barulhos pelas ruas e pessoas barulhentas pelos
pontos. Há barulhos demais. Agora mesmo há um homem quebrando algo sobre
sua cabeça. Quebrando o que um dia outro homem quebrou para consertar e quebrar novamente. E
isso é sem fim. Se o personagem de Camus disse que matou devido ao sol,
ao calor assassino, este homem pode dizer também que matará por causa do
barulho. As buzinas fazem barulhos e elas vêm acopladas aos carros, que
já disse, fazem barulho. Barulho, barulho. Parece que existe uma
necessidade desvairada de se distrair a vida, de se calar o silêncio em
carne viva. O silêncio que nos fará tapar os ouvidos. O silêncio que
durará um minuto de eternidade.
(Reynaldo Bessa)
Nenhum comentário:
Postar um comentário