Espertos

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O acaso é uma moeda que num dado momento cai em sua cabeça. Dois apostadores anônimos a jogaram para cima numa aposta insana e ela resolve cair bem em seu cocoruco. Ora, ao balcão, comendo um sanduíche de ricota com espinafre e tomando uma taça de vinho, um rapaz tímido resolve puxar assunto. Anhã! Mas ele insiste. Há algo em mim que cutuca a vida dele. Vai saber. Então, o destino com o seu sorrisinho típico de canto da boca dá o ar de sua graça: é o rapaz da britadeira que assassina a minha tentativa de sossego diário. E ao saber disso lhe encaro como se envenenasse a sua comida. Mas ele diz que acabou de casar e que sua filha acabou de nascer e que ele comprou o quartinho dela em 12 vezes e que seu chefe o odeia e que pega no seu pé e que ele tem medo de sair do emprego antes de terminar de pagar o quartinho de sua filha e diz também que tem alergia ao pó. Ele sorri apertado como se as lacunas do seu sorriso guardassem o pouco do cimento que ele acha que não engole. E ele diz que o pai está doente e que lhe pede dinheiro. Mas eu sei também que estou diante do cara de macacão que trepida sobre os meus ouvidos. Que pisoteia as minhas manhãs. O rapaz que fuça a boca do meu silêncio com sua escova de dentes de aço. Mas ele também é o rapaz com as juntas comprometidas e com uma mulher que acabara de ter uma filha e que já prepara outra. E ele diz que está juntando dinheiro para ir embora para um lugar sossegado e sem violência e sem perdição para sua filha se criar longe de todo o mal. E eu penso que esse lugar só existe na Bíblia ou na cabeça dele, mas ele continua lá, falando como se rezasse. E eu não sei se lhe dou um tiro na cabeça ou algum dinheiro. Referente ao tiro, seria bem possível que ele se ajoelhasse bem ali na minha frente, de pronto, o dinheiro, bom, ele não aceitaria, de jeito maneira. Queria trabalhar até o fim de sua vida. Ora, ele só tem vinte anos e já fala com a filosofia de uma bengala, é um pensamento reumático. Isso é o que dá roubar o silêncio de cada dia de um escritor. É a maldição das letras. Sai e acendi um paieiro. Depois joguei uma moeda imaginária para cima e escolhi uma de suas faces.Que ela caísse em outro cocoruco.

(Reynaldo Bessa)

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