O
acaso é uma moeda que num dado momento cai em sua cabeça. Dois
apostadores anônimos a jogaram para cima numa aposta insana e ela
resolve cair bem em seu cocoruco. Ora, ao balcão, comendo um sanduíche
de ricota com espinafre e tomando uma taça de vinho, um rapaz tímido resolve
puxar assunto. Anhã! Mas ele insiste. Há algo em mim que cutuca a vida
dele. Vai saber. Então, o destino com o seu sorrisinho típico
de canto da boca dá o ar de sua graça: é o rapaz da britadeira que
assassina a minha tentativa de sossego diário. E ao saber disso lhe encaro
como se envenenasse a sua comida. Mas ele diz que acabou de casar e que
sua filha acabou de nascer e que ele comprou o quartinho dela em 12
vezes e que seu chefe o odeia e que pega no seu pé e que ele tem medo de
sair do emprego antes de terminar de pagar o quartinho de sua filha e
diz também que tem alergia ao pó. Ele sorri apertado como se as lacunas do seu
sorriso guardassem o pouco do cimento que ele acha que não engole. E
ele diz que o pai está doente e que lhe pede dinheiro. Mas eu sei também
que estou diante do cara de macacão que trepida sobre os meus ouvidos.
Que pisoteia as minhas manhãs. O rapaz que fuça a boca do meu silêncio com sua escova de dentes de aço. Mas
ele também é o rapaz com as juntas comprometidas e com uma mulher que
acabara de ter uma filha e que já prepara outra. E ele diz que está
juntando dinheiro para ir embora para um lugar sossegado e sem violência
e sem perdição para sua filha se criar longe de todo o mal. E eu penso que esse lugar
só existe na Bíblia ou na cabeça dele, mas ele continua lá, falando como
se rezasse. E eu não sei se lhe dou um tiro na cabeça ou algum
dinheiro. Referente ao tiro, seria bem possível que ele se ajoelhasse bem ali na
minha frente, de pronto, o dinheiro, bom, ele não aceitaria, de jeito maneira.
Queria trabalhar até o fim de sua vida. Ora, ele só tem vinte anos e já
fala com a filosofia de uma bengala, é um pensamento reumático. Isso é o que dá roubar o
silêncio de cada dia de um escritor. É a maldição das letras. Sai e acendi um paieiro. Depois joguei uma moeda imaginária para cima e escolhi uma de suas faces.Que ela caísse em outro cocoruco.
(Reynaldo Bessa)
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