se eu
tivesse que guardar uma única lembrança, guardaria minha mãe cheia de
movimentos, energia, sorrisos enquanto preparava uma imensa árvore de
natal. Ela estava mesmo cheia de vida, e havia tantas caixas pelo chão, e
sob meus pés estalavam caquinhos de vidros coloridos e a alegria tinha
som de papéis de chocolates, e do forno saía um cheiro bom, e meu pai
tinha uma cabeleira enorme, e minhas irmãs
usavam vestidos coloridos e riam sem parar, e o meu irmão queria ser
cientista e tinha os dentes tão brancos que acendiam as noites. Era só
isso. E era tudo. E o futuro: esse senhor de capa escura e de olhar soturno que um dia
entrou sem bater na porta era apenas um apito de trem ao longe, longe,
longe, longe, longe, longe, longe....
(Reynaldo Bessa)
Nenhum comentário:
Postar um comentário