Espertos

sexta-feira, 13 de junho de 2014

se eu tivesse que guardar uma única lembrança, guardaria minha mãe cheia de movimentos, energia, sorrisos enquanto preparava uma imensa árvore de natal. Ela estava mesmo cheia de vida, e havia tantas caixas pelo chão, e sob meus pés estalavam caquinhos de vidros coloridos e a alegria tinha som de papéis de chocolates, e do forno saía um cheiro bom, e meu pai tinha uma cabeleira enorme, e minhas irmãs usavam vestidos coloridos e riam sem parar, e o meu irmão queria ser cientista e tinha os dentes tão brancos que acendiam as noites. Era só isso. E era tudo. E o futuro: esse senhor de capa escura e de olhar soturno que um dia entrou sem bater na porta era apenas um apito de trem ao longe, longe, longe, longe, longe, longe, longe....

(Reynaldo Bessa)

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