Espertos

sábado, 27 de junho de 2015

Enquanto todos amavam a Lua: poetas, namorados, insones, seresteiros, bêbados, solitários & cia, eu a odiava. Não, eu a temia. Quando, ainda menino, fui ao cinema, a primeira coisa que vi, naquilo que mais parecia o meu lençol estendido na parede, foi a Lua. E ela veio para cima de mim como se tivesse se soltado do Céu. E só não caiu bem em minha cabeça ou em meu colo por que bateu a cara rechonchuda na tela, pelo lado de dentro, claro. Mas eu vi que ela olhava pra mim feito um cão raivoso preso no portão. Só não corri por que meu irmão me segurou pela mão e disse: "senta ai, idiota". precisei de muito tempo para fazer as pazes com ela. Sempre que caminho pela madrugada e a vejo ali, feito um grande pássaro de luz numa gaiola escura, eu dou, vez em quando, uma olhadinha nela, pra conferir se continua lá, bicando as estrelas.

 (Reynaldo Bessa)

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