Enquanto todos amavam a Lua: poetas, namorados, insones, seresteiros,
bêbados, solitários & cia, eu a odiava. Não, eu a temia. Quando,
ainda menino, fui ao cinema, a primeira coisa que vi, naquilo que mais
parecia o meu lençol estendido na parede, foi a Lua. E ela veio para
cima de mim como se tivesse se soltado do Céu. E só não caiu bem em
minha cabeça ou em meu colo por que bateu a cara rechonchuda na tela,
pelo lado de dentro, claro. Mas eu vi que ela olhava pra mim feito
um cão raivoso preso no portão. Só não corri por que meu irmão me
segurou pela mão e disse: "senta ai, idiota". precisei de muito tempo
para fazer as pazes com ela. Sempre que caminho pela madrugada e a vejo
ali, feito um grande pássaro de luz numa gaiola escura, eu dou, vez em
quando, uma olhadinha nela, pra conferir se continua lá, bicando as
estrelas.
(Reynaldo Bessa)
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